Capítulo 3 de 12

Cisplatina e Primeiro Reinado

A campanha da Cisplatina, a derrota do Passo do Rosário e o motim das tropas no retorno, entre 1825 e 1831.

Em 12 de junho de 1825, o capitão Luiz Alves de Lima e Silva marchou para o Sul com o Batalhão do Imperador. Tinha vinte e um anos e ficaria fora da Corte por três.46

Do que fez nesses três anos quase não restou registro. As fontes disponíveis situam o Batalhão do Imperador dentro de uma campanha que mobilizou dezenas de milhares de homens e uma esquadra inteira, e nesse conjunto a presença de um capitão se dilui. Nem o livro escrito por seu tio Luiz Manoel de Lima e Silva, que passou os mesmos três anos em campo em outra unidade, traz informação sistemática sobre a participação do batalhão.46 50 Este capítulo, portanto, conta o que a documentação permite: a guerra em que ele serviu, a única batalha dessa campanha sobre a qual deixou uma análise escrita, e a crise política que, ao terminar, colocaria seu pai no governo do Brasil.

A guerra no mar e no bolso

A Guerra da Cisplatina começou depois do levante de 1825 na Banda Oriental e da decisão das Províncias Unidas de apoiá-lo. O Império respondeu com bloqueio naval do Rio da Prata. Quando as hostilidades eclodiram, o Brasil já mantinha esquadra numerosa na região, a ponto de Tasso Fragoso falar em um "círculo de ferro" ao redor de Buenos Aires, e o imperador procedeu a um recrutamento geral e rigoroso.46 50

O bloqueio custou caro. A resposta platina veio pelo corso, e os efeitos combinados atingiram o comércio, elevaram fretes e preços, encareceram a Armada e produziram mortes no transporte de tropas. A imprensa e o Parlamento registraram a percepção crescente de uma guerra cara e sem resultado, e esse desgaste alimentou a oposição a d. Pedro I. A campanha não explica sozinha a crise de 1831, mas é um de seus componentes.51

Em terra, a guerra dependia de um sistema de recrutamento que funcionava por negociação, não por decreto. Comandantes locais, relações pessoais e hierarquias sociais decidiam quem ia e quem ficava. As isenções protegiam determinados ofícios, arrimos de família e homens inseridos em redes de patronagem; os pobres sem proteção eram os mais vulneráveis. O recrutamento servia também como instrumento de controle social, e permitia despachar para a fronteira acusados e desafetos. Do outro lado, súplicas, substituições, licenças e deserções mostram que os recrutados e suas famílias não eram passivos.52

O resultado eram exércitos social e racialmente heterogêneos, numa fronteira em que homens circulavam entre as linhas e a lealdade era negociável.52 Foi nesse mundo que Luiz Alves passou dos vinte e um aos vinte e cinco anos.

Passo do Rosário

Cena de carga de cavalaria pintada por Guilherme Litran
Carga de cavalaria, de Guilherme Litran. A pintura evoca o tipo de combate travado nas campanhas do Sul.

Em 20 de fevereiro de 1827, perto da atual cidade de Rosário do Sul, travou-se a maior batalha campal em território brasileiro contra forças terrestres argentinas e orientais.53 O resultado é objeto de divergência até hoje: há quem a classifique como derrota brasileira, quem a considere indecisa e quem veja nela vitória estratégica do adversário.

Vinte e sete anos depois, em 28 de agosto de 1854, o então marquês de Caxias respondeu a um questionário de nove quesitos enviado pelo secretário do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Joaquim Manuel de Macedo. É a única ocasião conhecida em que ele analisou por escrito a campanha de sua juventude.53

Segundo a reprodução publicada por Cláudio Moreira Bento, Caxias descreveu uma sucessão de erros de comando. O exército brasileiro marchava, segundo essa reprodução, às cegas e sem informações seguras sobre o inimigo, e foi surpreendido em terreno que Alvear escolhera e onde se exercitara por dois ou três dias. A posição adversária dominava a brasileira e favorecia sua artilharia, superior em quantidade e qualidade. Entre os dois exércitos corria uma sanga seca, fosso que só dava passagem à cavalaria em poucos pontos, e atravessá-la à vista do outro significava desfilar sob seus fogos tanto no ataque quanto na retirada. Ainda assim, o comando brasileiro ordenou o ataque. Caxias julgava que devia ter adotado a defensiva e obrigado o inimigo a deixar a boa posição para atacar. Sobre a surpresa, o texto diz que ela impediu a reflexão e que tudo foi confusão ao se avistar o inimigo onde ele não era esperado.53

Os números atribuídos a ele nessa reprodução: cerca de 5.000 brasileiros contra 10.557 argentinos e orientais, com 1.720 brasileiros ausentes do combate. Baixas de mais de 200 do lado brasileiro e mais de mil do outro. Onze horas de batalha, durante as quais as unidades sustentaram as posições designadas. As munições de reserva e as bagagens foram tomadas logo no início; escaparam apenas as cavalhadas, conduzidas para São Gabriel por encarregados que agiram sem ordens. E faltaram 1.200 homens da melhor cavalaria, sob o coronel Bento Manoel Ribeiro, destacado para observar o inimigo com ordem de se reunir ao exército ao ouvir os primeiros tiros: não cumpriu, embora tivesse ouvido a artilharia, e recuou supondo perdido o exército brasileiro.53 Quarenta anos depois, no Senado, ele diria o contrário. Em 19 de abril de 1866, quando o senador Jobim acusou Bento Manoel de ter permanecido parado ouvindo a artilharia, Caxias aparteou: "E não terião ordem para isso? O general em chefe de então nunca o accusou." Em 29 de maio voltou ao assunto para dizer que, a seu ver, não houve falta do coronel, e que o silêncio do general em chefe o induzia a crer que ele tinha ordem de não se reunir ao exército. As duas versões não se conciliam. Ou a reprodução de 1854 não é fiel ao original, que continua por consultar no IHGB, ou Caxias mudou de posição entre uma data e outra.7 8

A conclusão sobre a retirada é a parte mais reveladora do documento. Caxias defendeu a decisão do marquês de Barbacena: sem munição desde o início da batalha, com a cavalaria quase inutilizada após onze horas e os muares da artilharia no mesmo estado, seria impossível tentar outra vez a sorte das armas antes de refazer munição e cavalhadas.53 Um oficial de cinquenta e um anos, depois da campanha vitoriosa contra Oribe e Rosas, olhava para o revés de sua juventude e concluía que o erro estivera na informação, na escolha do terreno e na decisão de atacar, e que a retirada fora correta.

Convém não confundir o marquês de 1854 com o capitão de 1827. O próprio texto informa que a análise se apoiou em quatro acampamentos posteriores no mesmo terreno e em depoimentos de oficiais brasileiros, argentinos e uruguaios, entre eles o coronel Eugênio Garzón, que combatera do lado adversário e que mais tarde comandaria as forças uruguaias ao lado das brasileiras contra Oribe e Rosas.53

O pai em Pernambuco e o preço de agir por conta própria

Retrato de Francisco de Lima e Silva por volta de 1850
Francisco de Lima e Silva, pai de Caxias, em retrato de cerca de 1850.

Enquanto o filho servia no Sul, o pai vivia o episódio que definiria a posição da família diante de d. Pedro I.

Francisco de Lima e Silva desembarcara em Pernambuco em agosto de 1824 com ordens expressas do imperador para instalar a Comissão Militar assim que identificasse os cúmplices da rebelião. A Comissão fora criada por decreto de 26 de julho e devia sentenciar verbal e sumariamente os réus, sem atenção a qualidade, empregos e graduações. O brigadeiro tomou o Recife em 12 de setembro e negociou a rendição de Olinda dois dias depois, recusando o armistício mas aceitando tratar. Ao relatar tudo ao ministro da Guerra, justificou a negociação com uma frase que vale como declaração de método:46

...a convicção em que estou de que Sua Majestade o Imperador antes quer governar homens arrependidos e submissos do que reinar sobre montões de ruínas e de cinzas e que me enviou a esta província para sujeitá-la e não para destruí-la.

Dez dias depois escreveu ao ministro do Império e, em vez de noticiar a instalação da Comissão Militar, mandou uma avaliação política da província. Dizia que Pernambuco não estava dividido apenas entre partidários e opositores da Coroa, e que havia um terceiro grupo, o dos indiferentes, que era o maior. A entrada armada na cidade os assustara, e eles passavam da indiferença à hostilidade. Não convinha usar meios violentos, escreveu: só por meios conciliatórios, medidas vigilantes e muita prudência é que se poderia chamar tanta gente à ordem.46

Litografia póstuma de Francisco de Lima e Silva, datada de 1861
Litografia póstuma de Francisco de Lima e Silva, datada de 1861.

Não foi atendido. Um concorrente, o brigadeiro José Manoel de Morais, o mesmo que sete anos antes vira o comando na Bahia lhe escapar para José Joaquim de Lima e Silva, enviou à corte um relato menos favorável, e o fez por dentro, escrevendo ao Chalaça, secretário particular do imperador. Em 16 de outubro, carta imperial exigia o cumprimento do decreto e listava, uma a uma, as pessoas que deviam ser enquadradas como cabeças do movimento.46

As execuções começaram em 13 de janeiro de 1825, com frei Caneca. A partir daí, Francisco de Lima passou a fazer o contrário do que lhe ordenavam: convocou testemunhas, montou defesa para os sentenciados e escreveu três ofícios ao Rio intercedendo por réus com nome e sobrenome. A Coroa respondeu mandando que as penas fossem executadas sem subir à presença imperial. Ele então despachou um coronel à corte para pedir de viva voz a suspensão dos trabalhos, e escreveu a um ministro amigo dizendo o que pensava:46

V. Exa. melhor que ninguém sabe que as Comissões Militares são tribunais de horror, e que só podem ter lugar quando as circunstâncias urgem.

Argumentou que julgar por tribunais ordinários taparia a boca a quem gritava contra o despotismo, que a continuação da Comissão produziria ódio e rancor passados de pais para filhos, e lembrou 1817, quando homens foram precipitadamente fuzilados e depois se concluiu que não eram os cabeças. Nenhum dos sentenciados foi perdoado nem teve pena comutada.46

A conta chegou depois. Por decreto de 5 de setembro de 1828, Francisco de Lima foi nomeado governador de Armas de São Paulo. Para um oficial superior sem o histórico dele, teria sido um posto importante. Adriana Barreto de Souza interpreta a nomeação como uma espécie de ostracismo: longe da corte e sem província sublevada, o brigadeiro perdia as oportunidades de recuperar a confiança do imperador. Foi obedientemente, e levou a família toda, menos Luiz Alves.46

O retorno e o 7 de abril

Peça de artilharia preservada no Museu Júlio de Castilhos
Peça de artilharia preservada no Museu Júlio de Castilhos, testemunho material das campanhas do Sul.

Luiz Alves voltou à Corte em 4 de outubro de 1828, poucas semanas depois da nomeação do pai. Ficou. No fim de 1828 foi promovido a major, adido ao Batalhão do Imperador, e em 18 de outubro do ano seguinte recebeu a Ordem da Rosa. Para rever a família precisou pedir licença ao imperador, concedida em janeiro de 1829, e passou um mês em São Paulo ao lado do pai.46

A promoção veio apesar da derrota na guerra, e não por causa de feito documentado. A Cisplatina terminou com a mediação britânica e a independência do Uruguai: o Império perdeu a província pela qual havia combatido três anos.50

O regresso das tropas foi tão difícil quanto a campanha. Vieram atrasos de soldo, incerteza sobre a permanência das unidades e desmobilização das forças de primeira linha. Na noite de 22 para 23 de abril de 1831, tropas estacionadas em Santa Catarina que voltavam da campanha souberam da Abdicação e se amotinaram, exigindo pagamento e a deposição de autoridades provinciais. O caso é de uma província e não descreve o Exército inteiro, mas mostra o ambiente em que um oficial regressado da Cisplatina retomava a carreira: soldo atrasado, disciplina precária e futuro incerto.54

Nesse meio-tempo, o pai tomou uma decisão incomum em sua trajetória. Chamado de volta à corte para o Comando de Armas interino, foi logo nomeado outra vez para São Paulo, agora por causa da agitação que se seguiu ao assassinato de Líbero Badaró. Recusou formalmente o cargo. Alegou as despesas das mudanças constantes com toda a família, e ficou na corte sem emprego, reduzido ao soldo da patente. Vendeu escravos para sustentar sete filhos. Anos depois escreveria que aquelas nomeações o faziam sentir-se um joguete das intrigas de alguns conselheiros do monarca, e que a intenção de todos era uma só: desmembrar a família Lima.46

D. Pedro I só voltou a nomeá-lo comandante de Armas da Corte em março de 1831, ao regressar de Minas Gerais e encontrar a cidade hostil. Precisava de um general moderado e brasileiro de nascimento. Na interpretação de Adriana Barreto de Souza, d. Pedro I foi obrigado a aceitar em 1831 aquilo que não tolerara em 1824: a independência de ação do brigadeiro.46

Um mês depois, na madrugada de 7 de abril, sem localizar o senador Vergueiro e pressionado pelo aviso de que a tropa no campo não esperaria mais, d. Pedro I lavrou o decreto de abdicação. Francisco de Lima mandou imediatamente distribuir cópias do decreto a todas as tipografias da cidade pelo secretário do Comando de Armas. Naquela mesma manhã, os deputados presentes na corte elegeram uma regência trina provisória, e o brigadeiro Francisco de Lima e Silva foi eleito ao lado de Vergueiro e do marquês de Caravelas. Em junho, era o nome mais votado para a Regência Permanente.46

Entre a nomeação para São Paulo, em 1828, e a Regência, em 1831, a posição política da família havia mudado por completo. Luiz Alves tinha vinte e sete anos, três anos de campanha, a patente de major e nenhum comando próprio. A Cisplatina não lhe deu glória documentada. Deu-lhe contato duradouro com a fronteira sul e com problemas de informação, logística e comando que reapareceriam em diferentes momentos de sua carreira.

Referências

Obras citadas nesta página, na ordem em que aparecem no texto.

Fontes primárias e documentos de época

  1. Anais do Senado do Império, 1866, livro 2. Brasília: Senado Federal. https://www25.senado.leg.br/web/atividade/anais/anais-do-imperio
  2. Anais do Senado do Império, 1866, livro 3. Brasília: Senado Federal. https://www25.senado.leg.br/web/atividade/anais/anais-do-imperio

Biografias, estudos e obras de referência

  1. SOUZA, Adriana Barreto de. Duque de Caxias: o homem por trás do monumento. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008. 616 p. ISBN 978-85-200-0864-5.
  2. DORATIOTO, Francisco. "Caxias no Prata: da Guerra da Cisplatina à da Tríplice Aliança". Revista do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil, v. 63, n. 89, p. 39-55, 2003. https://portaldeperiodicos.marinha.mil.br/index.php/ighmb/article/view/3532
  3. JUNQUEIRA, Lucas de Faria. "Implicações políticas da guerra naval cisplatina, 1825-1828". Navigator, v. 22, n. 43, p. 43-62, 2026. https://portaldeperiodicos.marinha.mil.br/index.php/navigator/article/view/8321
  4. LUFT, Marcos Vinícios. "Essa guerra desgraçada": recrutamento militar para a Guerra da Cisplatina, 1825-1828. 2013. Dissertação (Mestrado em História), Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. https://lume.ufrgs.br/handle/10183/76239
  5. BENTO, Cláudio Moreira. 175 anos da Batalha do Passo do Rosário. Porto Alegre: Genesis, 2003. 144 p. https://www.ahimtb.org.br/LIVRO%20A%20BATALHA%20DO%20PASSO%20DO%20ROS%C3%81RIO.pdf
  6. SCHMITT, Anderson Marcelo. "Desmobilização e revolta: o motim das tropas brasileiras no retorno da Cisplatina, 1831". Tempo, 2025. https://www.scielo.br/j/tem/a/RVHhMVNPygVBsX6JnHPPCyF/?lang=pt