Em 4 de março de 1818, aos catorze anos, Luiz Alves assinou o livro de matrícula da Real Academia Militar. Registrou-se como Luiz Alves de Lima.46
Chegava em condição diferente da que o avô tivera. Quando o menino fora assentado cadete, dez anos antes, José Joaquim ainda lutava para conseguir a patente de coronel. Agora o neto mais velho entrava na Academia como descendente de um brigadeiro do Exército Real agraciado poucos meses antes com o hábito da Ordem de Cristo. Durante aquele primeiro ano letivo, seu pai, Francisco de Lima, tornou-se tenente-coronel do regimento em que o filho servia como cadete. A família começava a mudar de posição social, e a mudança vinha da atuação dos tios, do pai e do avô nas campanhas da Coroa no Sul, em Caiena e em Pernambuco.46
Essa inserção tornava quase pessoal o vínculo de Luiz Alves com o regimento. Foi por isso que, ao precisar da certidão sobre a Guarda de Honra de novembro de 1817, dirigiu o ofício ao brigadeiro comandante, que era seu avô, e a atestação saiu de imediato. Nos exércitos de Antigo Regime, as famílias mais fortes geriam a aprendizagem militar dos filhos e tratavam o regimento como prolongamento da autoridade paterna.46
Na Real Academia Militar
A Real Academia Militar fora criada por carta régia de 4 de dezembro de 1810, dentro da reforma militar que a Coroa portuguesa empreendeu ao se instalar no Rio de Janeiro. Não era instituição inédita: a cidade já abrigara outras aulas e academias, e o próprio Francisco de Lima frequentara duas delas na década de 1790. A diferença da nova escola estava no estatuto e na ambição do currículo, distribuído em sete anos que iam da aritmética elementar à artilharia, passando por cálculo, mecânica, balística, astronomia, geodésia, tática, estratégia, fortificação, arquitetura civil, estradas, portos, canais e mineralogia.46
Poucos completavam esse percurso. Quem se destinava à infantaria e à cavalaria cursava apenas as matérias do 1º ano, de matemática elementar, e os assuntos militares do 5º. O curso integral era exigido só de artilheiros e engenheiros, e por isso essas duas armas eram tidas como científicas e gozavam de mais prestígio.46
Luiz Alves entrou destinado à infantaria. Cursou as matérias do 1º ano e depois as do 5º, e foi aprovado plenamente em todas elas. Concluídas as matérias exigidas para a sua arma, prosseguiu nos estudos e, em 1822, matriculou-se no 4º ano, provavelmente interessado em obter formação científica mais ampla. A família pertencia tradicionalmente à infantaria, e nada o obrigava a ir além.46
A escola em que entrou, porém, funcionava mal. Em 1811, primeiro ano de funcionamento, o livro de matrícula registrou setenta e três inscritos. Cinco anos depois, a junta diretora informava ao secretário dos Negócios da Guerra e Ultramar que o número de matriculados estava em contínua diminuição, e apontava a causa: não havia articulação entre a formação acadêmica e a ascensão na carreira. O estatuto assegurava dois terços das vagas dos corpos regulares aos oficiais formados pela Academia, e essa disposição nunca foi cumprida.46
À falta de atrativo somava-se a falta de autoridade. O estatuto nada dizia sobre disciplina, uniformes ou formaturas, e a direção era colegiada. Quando dois alferes passaram uma aula inteira colando rótulos nas costas dos colegas, o professor de matemática só pôde repreendê-los verbalmente; para aplicar dois meses de prisão foi preciso um ofício à junta, da junta ao ministro da Guerra e do ministro à Coroa, que não chegou a decidir. A direção desabafou em ofício, pedindo o fim daquele método lento e ineficaz.46
O ano letivo de 1820 começou pior. A junta reconhecia por escrito a evidente decadência do estabelecimento e se dizia destituída de autoridade e de meios para coibir as desordens. As desordens daquele ano eram as recepções aos novatos, em que os veteranos insultavam os calouros e lhes cobravam quantias em dinheiro chamadas de patentes, gastas depois em festins. Um dos novatos, Miguel Gabriel Ignácio da Silva, cadete do 1º Regimento de Cavalaria, levou o caso ao governo por petição. Contou que era esperado a pedradas na saída da Academia e nomeou quatro veteranos envolvidos. Entre eles estava Luiz Alves de Lima.46
Não foi localizada punição aplicada aos envolvidos. A junta pediu à Coroa autorização para manter uma sentinela do corpo de polícia à porta da escola, e ao que tudo indica não foi atendida. Um dos colegas citados na mesma petição, Ricardo Frederico Caldwell, seria proposto para expulsão meses depois, por ter perdido o ano.46
Em 26 de abril de 1821 morreu o avô. O marechal José Joaquim de Lima e Silva era o esteio da família, e havia dedicado os últimos anos a expandir o capital político e social dos Lima na corte. Sua morte deixou todos mais frágeis, sobretudo Francisco, que ainda era apenas coronel. A tradição que os Lima construíam, a de militares do 1º Regimento de Infantaria, precisava ser consolidada, e a continuação do projeto passava agora ao pai. Luiz Alves, primogênito, era preparado para assumir a direção da família tão logo fosse preciso.46
Enquanto isso, a política tomava as ruas ao redor da escola. A Academia funcionava no Largo de São Francisco de Paula, e o Largo do Rocio, logo atrás, era um dos palcos centrais dos acontecimentos. Foi ali que, em 26 de fevereiro de 1821, d. Pedro ocupou pela primeira vez a cena pública, garantindo à tropa que d. João se renderia às cortes. Em abril, na Praça do Comércio, uma assembleia de eleitores convertida em ato popular exigiu a adoção da Constituição espanhola e a criação de uma junta para acompanhar o governo do príncipe; no dia 22 o governo mudou de tática e a dissolveu pela força, com muitas mortes. As praças permaneceram ocupadas por tropas até 26 de abril, dia da partida de d. João. Em 5 de junho, o Largo do Rocio foi novamente tomado pela tropa para que d. Pedro jurasse a Constituição.46
Entre março e abril de 1822 já se falava abertamente de independência. Era o início do ano letivo. Luiz Alves matriculou-se no 4º ano e não o concluiu. Já havia terminado o curso da arma de sua família e servia como tenente no 1º Regimento de Infantaria do Rio de Janeiro, e os levantes de rua vinham aproximando d. Pedro da oficialidade da capital. Para os Lima, como para outros militares dispostos a essa aliança, o que se decidia nas praças valia mais do que o 4º ano de uma escola em decadência.46
Com o Batalhão do Imperador na Bahia
Declarada a independência, Luiz Alves passou a integrar o Batalhão do Imperador, criado por decreto de 18 de janeiro de 1823 e comandado por seu tio José Joaquim de Lima e Silva, recém-graduado coronel.46 O decreto apresentava a unidade como prova de que o imperador queria livrar a Bahia da opressão das tropas portuguesas.
A situação na província era grave. Desde os motins de fevereiro de 1822, lusos e brasileiros estavam em campos irreconciliáveis em Salvador, e a nomeação do brigadeiro português Inácio Luís Madeira de Melo para governador de Armas fora tomada como provocação das cortes de Lisboa. No Recôncavo, senhores de engenho e lavradores organizavam resistência própria. Para o Rio de Janeiro, tão importante quanto expulsar os portugueses da capital baiana era exercer direção sobre aquele movimento local, e por isso o general francês Pedro Labatut fora enviado em outubro de 1822. O Batalhão do Imperador foi o reforço do ano seguinte.46
Em 20 de fevereiro de 1823 o batalhão aportou em Maceió, o porto mais próximo da Bahia ainda não ocupado pelos portugueses. O comandante decidiu desembarcar ali e seguir por terra. Redigiu proclamações apresentando a tropa e anunciando seu destino, e mandou seu ajudante de ordens, o tenente Luiz Alves de Lima, entregá-las ao comandante de Armas da província para distribuição pelas povoações do caminho.46 Era medida prática antes de ser simbólica: sem a adesão dos vilarejos não haveria hospedagem, mantimentos, transporte para atravessar rios nem guias que conhecessem a região.46
O comandante de Armas de Alagoas a quem se apresentou era Joaquim Mariano de Oliveira Bello, um de seus tios maternos. Segundo Adriana Barreto de Souza, essa coincidência deve ter facilitado a chegada e a circulação do batalhão; para a historiadora, o episódio ilustra como os laços de parentesco entre famílias militares podiam favorecer a execução de comissões.46
A tropa levou mais de um mês em marcha, e o primeiro ofício de Labatut comunicando sua chegada é de 24 de março. O percurso era parte da missão. Em cada lugarejo, o Batalhão do Imperador deixava registrada a presença de d. Pedro, e cada manifestação de apoio local era também adesão à monarquia sediada no Rio. A proclamação publicada no Recôncavo para oficializar a chegada louvava a conduta do comandante e de seus oficiais: o bom arranjo e a subordinação dos soldados do imperador haviam deixado saudosas lembranças nos lugares por onde transitaram, e o respeito demonstrado às regalias e foros dos habitantes acalmara os ânimos quanto às intenções do imperador.46
O que o batalhão encontrou em Cachoeira era outra coisa. O general Labatut vivia em conflito aberto com o Conselho Interino de Governo da Bahia sobre quem tinha competência para organizar tropas, e vinha meses sem receber pólvora, remédios e gêneros. Em maio, ao saber de boatos de conspiração, mandou prender o coronel Felisberto Gomes Caldeira e ordenou ao coronel Lima e Silva que marchasse contra a Brigada da Esquerda. Escolheu-o por acreditar em sua isenção: era comandante nomeado pela Coroa e estava havia apenas dois meses no Recôncavo.46
O coronel não cumpriu a ordem. Considerando que a medida podia desencadear uma guerra civil, convocou a oficialidade das brigadas da Direita e do Centro para deliberar. A assembleia concluiu por unanimidade que dividir o Exército naquele momento ressuscitaria as tropas de Madeira de Melo, e resolveu enviar uma deputação a Labatut para tentar demovê-lo. Nem foi preciso: ao fim da reunião, dois oficiais chegaram ao acampamento de Pirajá para comunicar que o general fora preso. A assinatura de Luiz Alves consta na ata daquela reunião.46
Sem chefe, o Conselho Interino nomeou o coronel Lima e Silva comandante em chefe interino, cargo que em condições normais cabia a oficiais generais. Em 7 de junho, uma ordem do dia louvava a boa ordem e a coragem da tropa após um avanço sobre as trincheiras lusitanas. Em 30 de junho, Madeira de Melo pediu passagem livre para embarcar, e em 2 de julho o coronel entrou em Salvador. As freiras da Soledade armaram um arco do triunfo à porta do convento e ofereceram coroas verdes aos oficiais.46
A festa durou pouco. Em agosto o coronel já registrava em ordem do dia que alguém fora denegrir sua reputação junto ao imperador. Em setembro houve conflitos de rua entre o Batalhão do Imperador e corpos militares da província, com patrulhas atacadas diariamente. Lima e Silva pediu demissão, foi convencido a ficar numa cerimônia que ele próprio montou para medir quem lhe daria apoio publicamente, e em outubro, diante de novos boatos e da confirmação dos comandantes de que os boatos existiam, entregou de vez o comando. Luiz Alves acompanhou tudo de perto e assinou todas as representações organizadas por seu batalhão.46
A experiência da Bahia
O batalhão voltou à corte ainda em 1823. Apesar da tensão dos últimos meses, a expedição fora bem-sucedida no que o Império lhe pedia: Salvador estava restaurada e a adesão baiana à independência, assegurada. D. Pedro I remunerou bem os seus. Em fevereiro de 1824, o coronel José Joaquim foi nomeado ajudante de campo do imperador, feito dignitário da Ordem do Cruzeiro e promovido a brigadeiro. Seu irmão Manoel da Fonseca foi efetivado tenente-coronel do Batalhão do Imperador. João Manoel, o caçula, recebeu a patente de tenente.46
Luiz Alves foi promovido a capitão em 22 de janeiro de 1824. A carta patente passada pelo imperador, dessa vez, não trazia o nome de seu avô nem o de seu pai: o posto vinha em remuneração a serviços prestados por ele mesmo. O documento que resume esses serviços diz:
Assistiu ao ataque de 28 de março e às ações de 3 de maio e de 3 de junho, servindo distintamente em toda a campanha. Na primeira ação, à testa de uma companhia, atacou uma casa-forte, onde o inimigo estava entrincheirado, e o fez sair com perda. Nos dias de fogo, comparecia nos lugares de maior perigo, mostrando sua exemplar bravura.46
Era assim que se formava um oficial do Exército naquela época. Prevalecia ainda na cultura militar portuguesa a tradição que mais tarde seria chamada, com desdém, de tarimbeira: o verdadeiro oficial se formava no campo de batalha. A Coroa não tinha pressa em mudar isso, e a razão era prática. Governar um império de dimensões continentais exigia dos oficiais, além da capacidade de guerrear, uma habilidade específica, a de negociar com autoridades regionais. A circulação geográfica por meio de expedições militares era a escola dessa habilidade, e continuaria a ser entre os militares brasileiros por muito tempo.46
Na interpretação de Adriana Barreto de Souza, a campanha da Bahia demonstra esse princípio. A chegada do coronel Lima e Silva ao Recôncavo teria sido festejada porque, na marcha desde Maceió, ele conquistara as localidades por meio de demonstrações de respeito às regalias e foros dos habitantes. Com isso mostrava que o imperador não pretendia alterar as hierarquias da região, e em troca pedia a adesão das autoridades locais aos princípios da nova monarquia. Negociar os termos dessa adesão era, nessa leitura, uma das tarefas da expedição.46 O jovem oficial acompanhou o método funcionar em Maceió, falhar em Cachoeira e ser abandonado em outubro. Era a primeira vez que assistia a uma campanha decidir-se tanto fora do combate quanto dentro dele.
Em 2 de abril de 1824, de volta à corte, prestou juramento de fidelidade à Constituição do Império.46 Quatro meses depois, em 1º de agosto, seu pai embarcava para Pernambuco como general comandante das forças imperiais contra a Confederação do Equador. A escolha confirmava a confiança de d. Pedro I nos Lima e Silva. Luiz Alves não seguiu o pai: permaneceu na corte, como capitão do Batalhão do Imperador.46
Referências
Obras citadas nesta página, na ordem em que aparecem no texto.
Biografias, estudos e obras de referência
- SOUZA, Adriana Barreto de. Duque de Caxias: o homem por trás do monumento. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008. 616 p. ISBN 978-85-200-0864-5.