Em 5 de outubro de 1767, a nau da Ajuda entrou no porto do Rio de Janeiro trazendo oficiais, soldados e parte de um amplo esforço de reorganização militar do domínio português na América. A bordo estava o tenente-general Johann Heinrich Böhm, contratado para reformar as tropas e preparar a defesa da fronteira meridional. Também desembarcaram dois irmãos portugueses: o coronel Francisco de Lima da Silva, comandante do 1º Regimento de Bragança, e José Joaquim de Lima da Silva, alferes de vinte e um anos. O mais novo dos dois ficaria no Brasil. Seu neto nasceria trinta e seis anos depois.46
Dois irmãos atravessam o Atlântico
Os Lima da Silva vinham de Lagos, no Algarve. Francisco era o filho mais velho de João da Silva da Fonseca e de Isabel Josefa, e a família pertencia havia pelo menos duas gerações ao mundo militar português, sem títulos de vulto e sem chegar ao Rio desprovida de posição.46
A carreira de Francisco fora longa. Serviu nas campanhas do império português no Oriente, onde as promoções acompanharam de perto os movimentos da guerra: passou a capitão em junho de 1740, um mês depois da partida dos primeiros regimentos de infantaria para a defesa de Goa, e a sargento-mor em maio de 1746, quando os portugueses saíram vitoriosos da praça de Alorna. Depois veio a reorganização militar do período pombalino, e com ela o posto de coronel.46
A diferença de idade entre os irmãos era de vinte e nove anos, e a morte do pai pouco tempo antes fez de Francisco o responsável por orientar a carreira do caçula. Foi ele quem, usando as prerrogativas de comandante do Regimento de Bragança, promoveu o cadete José Joaquim a alferes antes de deixarem Portugal e o embarcou na expedição para o Rio de Janeiro.46
O Rio para o qual vieram acabara de se tornar capital do Estado do Brasil. A cidade ganhava importância como porto das Minas e como centro da defesa portuguesa diante dos espanhóis no Sul. A presença de três regimentos vindos do Reino e de um general recomendado pelo conde de Lippe mostrava quanto a Coroa valorizava aquela posição. Para os dois irmãos, o serviço ultramarino trazia riscos, e trazia também possibilidades de promoção que uma guarnição tranquila de Portugal dificilmente ofereceria.46
Francisco de Lima encontrou dificuldades. A saúde o afastou do comando durante parte do primeiro ano, e seu modo de dirigir o regimento não se ajustava à disciplina de inspiração prussiana que Böhm pretendia implantar. O próprio Böhm, porém, considerava a experiência do coronel no Oriente uma "escola", onde ele teria aprendido a ser um "oficial de valor e muito honrado".46 Depois de participar da campanha contra os espanhóis, Francisco regressou a Portugal. Por decreto de 2 de maio de 1777, d. Maria o reformava no posto de coronel com soldo integral e o mandava assumir o governo das armas de Castro Marim, a mesma região de onde partira dez anos antes. Em 10 de julho seguinte, um decreto do Conselho de Guerra promoveu-o a brigadeiro. Morreu em 1779, em Castro Marim.46
José Joaquim permaneceu no Brasil. Em 1781, suas irmãs, que viviam em um convento na freguesia de Beja, encaminharam requerimento à Coroa pedindo que o irmão voltasse para cuidar dos bens deixados por Francisco, e a Coroa autorizou. Ele preferiu ficar no Rio de Janeiro.46 A escolha definiu o futuro da família. Sem a proteção direta do irmão e num período de poucas campanhas, sua ascensão seria lenta. Passou longos anos em cada posto, apresentou requerimentos, reuniu atestações de serviço e disputou promoções segundo as regras do Exército português. Ao mesmo tempo, foi criando raízes na sociedade fluminense.46
O regimento e a família
José Joaquim casou-se com Joana Maria da Fonseca Costa, de uma antiga família militar do Rio de Janeiro. Os Fonseca Costa estavam presentes nas tropas regulares e nas forças auxiliares, tinham parentes em cargos da burocracia militar e judiciária em Lisboa e eram bem relacionados na cidade. Um primo de Joana Maria, Manoel Álvares da Fonseca Costa, era governador da fortaleza de São Clemente aos trinta e quatro anos. Para o oficial português recém-chegado, o ingresso naquela família representava a chance de diminuir seu isolamento.46
O casal teve numerosa descendência, e os filhos homens foram encaminhados cedo para o serviço militar. O mais velho recebeu o nome do tio que trouxera José Joaquim ao Brasil: Francisco de Lima da Silva. Outros foram igualmente assentados como cadetes no 1º Regimento de Infantaria do Rio de Janeiro, o antigo Regimento de Bragança. Com o passar dos anos, a continuidade de pais, filhos e irmãos no mesmo corpo fez com que ele ficasse informalmente conhecido como o "regimento dos Lima".46
Isso não punha as promoções em segurança. José Joaquim conheceu esperas prolongadas e precisou defender sua antiguidade diante de concorrentes mais bem relacionados. Ainda assim avançou. Também serviu como almotacé, um dos cargos de governança da capital, exercido por mandato renovável de três anos e obtido por processo eletivo que começava com listas nominais organizadas por ordem do ouvidor da comarca. A simples inclusão de seu nome numa dessas listas já dizia algo sobre a posição alcançada. A carreira militar, os casamentos e o serviço público foram aproximando a família dos círculos dirigentes do Rio.46
Em novembro de 1801, Francisco de Lima da Silva, primogênito de José Joaquim e futuro pai de Caxias, casou-se com Mariana Cândida de Oliveira Bello, então com dezoito anos. Ela era filha do coronel de milícias Luiz Alves de Freitas Bello e de Ana Quitéria Joaquina de Oliveira. O casamento uniu duas famílias ligadas às armas, com trajetórias diferentes: os Lima se haviam firmado nos regimentos regulares da capital, e os Bello tinham experiência nas forças auxiliares, na administração de propriedades e nas redes que ligavam Minas Gerais ao Rio de Janeiro.46
Os Bello haviam deixado Minas em 1789, depois dos acontecimentos ligados à Inconfidência. O coronel Luiz Alves servira no Registro de Paraibuna e mantinha parceria de negócios com Joaquim Silvério dos Reis, que fora contratado para casar-se com uma de suas filhas, Bernardina Quitéria. A perseguição que atingiu os Bello e a confiscação de parte de seus bens decorreram dessa cumplicidade com o delator. A ligação aproxima a família de um episódio central da história colonial, e não autoriza atribuir às gerações seguintes as escolhas políticas de Joaquim Silvério. Para a trajetória de Luiz Alves, o que pesou foi outra coisa: a união dos Lima e dos Bello reuniu duas redes familiares empenhadas em consolidar posição no Rio de Janeiro do início do século XIX.46
O nascimento e a chegada da Corte
O primeiro filho do casal foi Ana Quitéria, nascida em 1802 e batizada com o nome da avó materna. Em 25 de agosto de 1803 nasceu o primeiro menino, Luiz Alves de Lima e Silva. O local foi a Fazenda São Paulo, na freguesia de Inhomirim, região então vinculada à Vila da Estrela, na baixada do Rio de Janeiro. A área se comunicava com o fundo da baía de Guanabara e com os caminhos que conduziam ao interior, e mais tarde ficaria associada ao município de Magé.46
A propriedade aparece na história familiar com uma particularidade. A escritura de compra da Fazenda São Paulo pelo avô materno é de janeiro de 1805, cerca de um ano e meio depois do nascimento. A família já vivia ali ou frequentava o lugar antes da conclusão formal do negócio. É correto dizer que Luiz Alves nasceu na fazenda; o que não se deve fazer é antecipar para 1803 a data documentada de sua aquisição pelos Bello.46
O nome do menino aproximava os dois ramos. "Luiz Alves" vinha do avô materno, Luiz Alves de Freitas Bello, e o avô paterno, José Joaquim de Lima da Silva, foi escolhido como padrinho. Foi também nos assentos de batismo dessa geração que o sobrenome composto "Lima e Silva" passou a aparecer oficialmente, embora vários membros da família continuassem a assinar apenas "de Lima".46
Luiz Alves nasceu, portanto, numa família em ascensão e ainda distante do poder e dos títulos que seus descendentes alcançariam. O pai era capitão. O avô paterno ainda disputava reconhecimento e promoção. O avô materno reorganizava vida e patrimônio depois da mudança para o Rio. O ambiente doméstico, porém, já era marcadamente militar: patentes, regimentos, requerimentos, campanhas e serviços prestados à Coroa faziam parte da experiência cotidiana das duas gerações que o precederam.
A transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808, alterou profundamente esse quadro. A cidade deixou de ser apenas a capital de uma colônia e passou a abrigar o príncipe regente, os tribunais, as secretarias e as instituições trazidas ou criadas para o funcionamento da monarquia. O Exército foi um dos setores diretamente transformados. Arsenais e hospitais militares foram reorganizados, e criaram-se o Conselho Supremo Militar, o Arquivo Militar, a Real Academia Militar e novos estabelecimentos técnicos.46
Para os Lima e Silva, as oportunidades se multiplicaram. Depois de décadas de promoções lentas, José Joaquim foi graduado coronel em novembro de 1808 e efetivado pouco depois, promovido a brigadeiro em 1812, agraciado com o hábito da Ordem de Cristo em 1817 e, no ano seguinte, elevado a marechal de campo e fidalgo cavaleiro da Casa Real. Os filhos também avançaram: Francisco, pai de Luiz Alves, alcançou o posto de tenente-coronel do 1º Regimento em 1818. A proximidade da Corte não substituía o serviço, mas tornava os oficiais mais visíveis e ampliava as possibilidades de recompensa.46
Foi nesse contexto que, em 22 de novembro de 1808, Luiz Alves assentou praça como cadete no 1º Regimento de Infantaria do Rio de Janeiro. Tinha cinco anos.46
A informação, repetida nas biografias posteriores, às vezes produz a imagem de uma criança já incorporada à vida dos quartéis. Não era isso que o registro significava. O título de cadete era uma distinção concedida aos filhos de oficiais de determinada patente e assegurava precedência para o futuro ingresso na carreira. Não foi o começo do serviço militar ativo; foi um lugar guardado, o que é uma vantagem real e de outra natureza.46
Essa explicação não diminui a importância do episódio. Mostra a força da tradição a que o menino pertencia. Seu nome já estava registrado no mesmo regimento em que serviam o pai, os tios e o avô. Quando chegasse à idade adequada, encontraria ali uma rede de experiência, autoridade e proteção construída pela família desde 1767.
Os primeiros quinze anos
Os primeiros quinze anos de Luiz Alves deixaram poucos registros. A tradição atribui à avó materna, Ana Quitéria, as primeiras lições de letras e de matemática na Fazenda São Paulo, mas não foi encontrada documentação que permita confirmar essa informação.46
É provável que tenha estudado no Seminário São Joaquim, instituição de ensino do Rio de Janeiro que muito mais tarde daria origem ao Colégio Pedro II. A cronologia de sua principal biografia registra a conclusão do curso preparatório em 1817, e a matrícula ainda não foi localizada. O que se pode afirmar com segurança é que possuía a formação necessária para se matricular, em janeiro de 1818, na Real Academia Militar.46
Um documento de novembro de 1817 já o mostra próximo da vida pública da Corte. Luiz Alves participou, como cadete, de uma Guarda de Honra formada para o desembarque da princesa real, e depois solicitou ao comandante do regimento uma certidão que comprovasse sua presença. O comandante era seu próprio avô, José Joaquim. É a primeira participação documentada do menino numa cerimônia militar, e ela reúne, num só ato, a monarquia instalada no Rio, o Exército e a continuidade familiar que atravessara toda a sua infância.46
Aos catorze anos, Luiz Alves ainda não havia participado de guerra nem exercido comando. Herdara, porém, algo de valor: o acesso a uma carreira conhecida pela família havia décadas, a convivência com oficiais experientes e uma posição próxima das instituições centrais da monarquia. Essa herança abriu portas que estavam fechadas para muitos de seus contemporâneos, e não determinou sua trajetória. A prova está dentro da própria casa. Anos mais tarde, Caxias conduziria a campanha imperial que encerrou a revolução da qual seu tio João Manoel fora um dos primeiros líderes.46
A partir de 1818, ao entrar na Real Academia Militar, Luiz Alves começaria a transformar essa herança em trajetória própria. Nos anos seguintes, a Independência e as guerras do novo Império lhe dariam oportunidades que os homens de sua família haviam esperado por grande parte da vida.
Referências
Obras citadas nesta página, na ordem em que aparecem no texto.
Biografias, estudos e obras de referência
- SOUZA, Adriana Barreto de. Duque de Caxias: o homem por trás do monumento. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008. 616 p. ISBN 978-85-200-0864-5.