Em 1863, o ministro da Guerra Polidoro da Fonseca Quintanilha Jordão apresentou às Câmaras um relatório que hoje se lê como inventário do que o Império tinha quando a guerra chegou. As 14 mil praças fixadas para o exercício de 1863 a 1864 eram insuficientes, e ele propunha vinte mil. O recrutamento continuava a ser feito à força. As armas de pederneira começavam apenas naquele momento a ser substituídas.20 Era esse o instrumento disponível, e nenhuma decisão tomada nos três anos seguintes conseguiria refazê-lo depressa.
O dinheiro mostra o tamanho do sobressalto melhor do que qualquer descrição. Em maio de 1864, a Lei 1.208 abriu à Guerra um crédito suplementar de 718 contos e 406 mil réis, destinado a quatro verbas determinadas do exercício corrente.14 Oito meses depois, em fevereiro de 1865, o Decreto 3.401 abriu um crédito extraordinário de 8.492 contos.14 Em junho do mesmo ano, a Lei 1.244 destinou à Guerra 34.749 contos e 847 mil réis.14 Os três números não são comparáveis entre si, porque o primeiro é suplementar e de rubricas fechadas e os outros dois são créditos de guerra de exercícios distintos. Nem são despesa realizada: são valores votados. Ainda assim, a ordem de grandeza que separa um crédito de rotina de um crédito de guerra fica visível sem nenhuma conta.
O que Caxias era em 1864 e 1865
Em 27 de abril de 1864, pouco mais de três meses antes do ultimato brasileiro ao Uruguai, Caxias discursou no Senado sobre recrutamento, conscrição e falta de oficiais. Falou das vagas de tenente que não se preenchiam e da evasão de oficiais para outras carreiras.25 Não era discurso sobre a guerra contra o Paraguai, que ainda não começara. Era sobre o instrumento, e vinha de quem o conhecia por dentro.
Nos dois anos seguintes ele permaneceu no Rio de Janeiro. A Coleção das Leis o registra como marechal de exército graduado, ajudante de campo do Imperador e conselheiro de guerra.14 Procurou-se ali, nos volumes de 1864 e 1865, alguma nomeação sua para comando, e não se encontrou nenhuma; convém não converter esse silêncio em prova, porque os decretos de nomeação pessoal não entravam naquela publicação. O que se pode afirmar é o que os atos reunidos mostram: entre a abertura da guerra e outubro de 1866, eles documentam postos de conselho e de corte, e nenhuma comissão de campanha foi localizada.
Um deles merece registro porque quase nunca é lembrado. Por aviso de 18 de dezembro de 1865, o ministro Ferraz instalou uma comissão para rever a legislação e a organização militares, presidida pelo conde d'Eu. Caxias foi nomeado primeiro vice-presidente e, dos vários membros, o único que integrou duas seções de trabalho: a do serviço interno das tropas em marcha, acampamento e operações, e a do recrutamento e das classes de cadetes.26 Polidoro e Paranhos figuravam na seção de justiça militar. Enquanto a guerra se travava a dois mil quilômetros dali, o futuro comandante em chefe estava designado, na corte, para rever regulamento de campanha e lei de recrutamento. O aviso prova a designação; se ele compareceu às sessões da comissão, e o que disse nelas, não consta do material reunido.
Da intervenção no Uruguai à guerra com o Paraguai
A guerra não teve causa única. Cruzaram-se nela a guerra civil uruguaia, a intervenção imperial, a formação dos Estados platinos, disputas de fronteira e cálculos de cada um dos governos envolvidos.65 27 O Império interveio militarmente no Uruguai em outubro de 1864, depois de um ultimato, alegando proteção a súditos brasileiros; o governo paraguaio já avisara que consideraria a intervenção contrária a seus interesses.65 27 A resposta veio no fim do ano, com a apreensão do vapor Marquês de Olinda e a invasão do sul de Mato Grosso.27 6 Doratioto entende que o governo imperial foi surpreendido, por não esperar que o Paraguai respondesse à questão uruguaia com uma ofensiva contra o Brasil; é leitura dele sobre a percepção reinante no Rio de Janeiro, e não se deve transformá-la em desconhecimento uniforme de todos os que decidiam.65
Em abril de 1865 o Paraguai invadiu Corrientes, e o conflito, até então entre Brasil e Paraguai, passou a envolver a Argentina.27 65 Em 1º de maio, Brasil, Argentina e Uruguai assinaram o Tratado da Tríplice Aliança, que proibia a paz em separado e entregava a Bartolomé Mitre o comando em chefe das forças aliadas enquanto a guerra se travasse em território argentino ou paraguaio.27 65 50 Essa cláusula pesaria sobre tudo o que veio depois, e é preciso mantê-la distinta de duas outras coisas: o comando de cada contingente nacional e o comando da esquadra brasileira.
O ano de 1865 terminou com a impressão de que a guerra seria curta. A esquadra de Barroso venceu em Riachuelo em 11 de junho e reduziu a capacidade paraguaia de usar o Paraná para sustentar a ofensiva.27 Em agosto veio Yataí; em 18 de setembro, a rendição de Uruguaiana desfez a coluna paraguaia que descera pelo sul.27 6 Nada disso encerrou a campanha, mas alimentou a expectativa de que faltava pouco.
O que se dizia no Senado em 1865
Há uma sessão do Senado que mostra, melhor do que as narrativas posteriores, o que se sabia e o que não se sabia na corte. Em 14 de junho de 1865, o ministro da Guerra Ângelo Moniz da Silva Ferraz foi interpelado no Senado e admitiu não conhecer "cabalmente" o estado do exército. Disse ter sabido pelos jornais que divisões do Rio Grande continuavam paradas em Bagé e em Sant'Ana do Livramento. Declarou então que, "se houver autoridade que contra as ordens do governo faça retardar essa marcha, o governo tem em suas mãos um meio infallivel de ser obedecido: mudará essa autoridade", e emendou em seguida: "mas por ora isto não é preciso, creio que necessariamente as ordens do governo serão cumpridas pelos seus delegados".28 As duas frases estão na página, nessa ordem. Um ministro que fala em trocar o comandante e desmente a ameaça na frase seguinte diz muito sobre o que se passava, mesmo sem querer.
Na mesma sessão, Furtado leu um mapa que Polidoro assinara em 14 de fevereiro daquele ano: 5.209 infantes, 1.022 artilheiros e 1.026 cavaleiros diante de Montevidéu, 7.257 praças ao todo.28 E leu também uma carta que Paranhos lhe escrevera de Montevidéu na mesma data de 14 de fevereiro: "Se não vier a mudança (do general em chefe do exercito) não deixaremos por isso de tomar Montevidéo; se vier a tempo, que seria agora, as cousas irão com mais actividade."28 É a menção mais antiga, em todo o material reunido para este livro, à expectativa de uma troca no comando. Não diz quem sairia nem quem entraria. O parêntese explicativo pode ser do próprio Furtado, e o original da carta não foi consultado: o que existe é o texto lido em plenário e registrado nos Anais.
Dez dias depois dessa carta, em 24 de fevereiro de 1865, o mesmo Paranhos escreveu diretamente a Caxias. Descreveu carências do Exército, criticou Tamandaré e afirmou que López deveria desaparecer.29 No alto do documento há uma anotação: "Respondida no dia 6 de Março 1865". A resposta existiu; seu conteúdo não está no corpus desta pesquisa.29 Vale o que a carta prova, e nada além: em fevereiro de 1865 Caxias recebia avaliação reservada de um dos protagonistas da política platina, e respondeu.
Caxias falou pouco nessas sessões. Na de 14 de junho, sua única intervenção foi um "Apoiado" quando o ministro criticou a qualidade das barracas fornecidas à tropa.28 Em 5 de junho, durante a defesa parlamentar da missão ao Prata, interveio uma única vez, apoiando o elogio feito ao general Mena Barreto.63 São apartes sobre intendência e sobre pessoas, não sobre a condução da guerra.
A entrada no Paraguai e Curupaiti
Em 16 de abril de 1866 os aliados passaram o Paraná e levaram o grosso da guerra para território paraguaio, diante de um sistema defensivo cujo centro era Humaitá.27 50 O terreno era mal conhecido e os mapas insuficientes. Os comandos se sobrepunham: sobre as forças brasileiras, Tamandaré na esquadra, Porto Alegre e Polidoro em terra, e acima de todos, pelo tratado, Mitre. As relações entre eles eram tensas, por razões profissionais e políticas.50 66 60 Seria simplificação atribuir os insucessos apenas a essas rivalidades, porque logística, comunicações e objetivos políticos divergentes pesavam tanto quanto.
Em 2 de maio, o combate de Estero Bellaco mostrou que a retirada paraguaia não significava abandono da ofensiva.30 Em 24 de maio, em Tuiuti, os aliados repeliram o maior ataque paraguaio da guerra até então. Foi vitória grande e não encerrou nada: o sistema defensivo permaneceu intacto.30 66 As cifras de efetivos e baixas variam demais entre os autores para que este capítulo fixe alguma.
Em 3 de setembro tomou-se Curuzú, a um custo alto, e a posição seguinte ficou ao alcance.66 30 Em 12 de setembro, em Yataity-Corá, Mitre e López se encontraram sem chegar a acordo: Mitre declarou-se vinculado ao tratado e condicionou qualquer solução à saída de López do poder.66 30 Dez dias depois veio Curupaiti.
O assalto de 22 de setembro reuniu reconhecimento deficiente, confiança excessiva no efeito do bombardeio naval, coordenação precária entre as forças e ataque frontal contra fortificações que não haviam sido destruídas.66 30 50 O relatório da comissão de engenheiros do 2.º corpo, assinado pelo major Rufino Enéas Gustavo Galvão no acampamento de Curuzú em 28 de setembro, foi publicado na Parte Official do Correio Mercantil de 27 de outubro. Ele descreve a jornada hora a hora: a artilharia brasileira cessou fogo ao meio-dia e meia, quando as colunas avançaram; às duas e meia da tarde Mitre já mandara retirar os argentinos e comunicou ao comandante brasileiro a conveniência de fazer o mesmo; às três e meia Porto Alegre retirou-se, segundo o relatório, "á instancias do Exm. general Mitre". O documento registra 1.854 homens fora de combate no 2.º corpo, perto de duzentos deles oficiais.21 É cifra oficial brasileira de um corpo de exército, não total aliado; os totais divergem entre Doratioto, Whigham e Schneider, e este capítulo não os soma.
O que se seguiu importa mais do que a batalha. A frente parou. A crise saiu do campo militar e alcançou o apoio político à guerra, o recrutamento, a relação entre os chefes brasileiros e a coesão da própria aliança.66 50 A sequência permite interpretar a nomeação de outubro como resposta a esse acúmulo, e não a uma derrota isolada. A interpretação é minha; os documentos dão a sequência, não o nexo.
Caxias no Senado em 1866
Enquanto isso, no Rio de Janeiro, Caxias tinha uma temporada parlamentar mais ativa do que a de 1865, e quase toda ela sobre o Exército.
Em 19 de abril de 1866, o senador Jobim fez um discurso duro sobre a invasão do Rio Grande do Sul no ano anterior. Afirmou que o presidente da província, Gonzaga, pedira ao governo "um homem que reunisse as duas autoridades, a civil e a militar", que o nome cogitado fora o de Caxias, e que "alguem" o vetara por temer que ele "faria uma inversão em politica".7 Caxias estava presente e deu vinte e um apartes naquela sessão. Nenhum sobre o veto. Sobre comando, disse três coisas: "Em taes occasiões não se faz conselhos", "Perdeu-se o tempo em fazer conselhos" e, quando se falou de insubordinação, "Nunca soffri nenhuma".7
A denúncia de Jobim é a única notícia documentada, em todo este corpus, de que o nome de Caxias tenha sido considerado e recusado antes de 1866. Precisa ser lida pelo que é. Jobim fala em plenário, contra o governo, e ele próprio introduz o episódio com um "parece que". A cogitação que ele descreve é de meados de 1865 e para o Rio Grande do Sul, não para o comando no Paraguai. Quem teria vetado, ele não diz, e não cabe a este livro preencher o nome.
Em 29 de maio, Caxias voltou à tribuna para retificar apartes daquela sessão. Negou ter dado um "Apoiado" que os Anais lhe atribuíam a respeito de Pelotas, defendeu o barão de Porto Alegre como "meu companheiro em tres campanhas; fui seu intimo amigo, e ainda o estimo muito", e disse não ler os discursos do Senado, apenas os da Câmara.8 Retificação é gênero autojustificativo, e o registro do dia 19 contradiz a negativa; as duas versões ficam aqui lado a lado, sem escolha. O que a sessão documenta com segurança é a relação com Porto Alegre poucos meses antes de Caxias passar a comandá-lo no Paraguai. Porto Alegre não foi substituído: continuou à frente do 2.º corpo, agora sob o comando unificado.
Na mesma sessão de 29 de maio ele falou de Bento Manoel Ribeiro no Passo do Rosário, contradizendo o que ele próprio respondera ao Instituto Histórico em 1854. O episódio pertence ao capítulo 3 e lá está registrado.
Algumas semanas antes, em 5 de maio, Caxias fora eleito para a Comissão de Marinha e Guerra com vinte e oito votos, o mais votado.8 Em 7 de junho assinou, com Paranhos, Itaboraí, Muritiba e Souza Franco, um parecer que recusava a concessão de postos honorários de oficial general "por detrimento á disciplina" e limitava a honraria ao posto de coronel.31 Em 16 de junho, no debate sobre um quadro extraordinário de promoções proposto por Teófilo Ottoni, apoiou a resistência do ministro à autorização ampla e, quando Ferraz calculou que só em soldo a despesa chegaria a 43 contos e 128 mil réis, aparteou: "Sem necessidade".31 Na mesma sessão, Ferraz declarou concordar "com o illustre general o Sr. marquez de Caxias" em que certos postos deviam ser promovidos exclusivamente por antiguidade.31 O ministro admitiu ali, de passagem, não ter em mãos as ordens do dia do comando em chefe. Em 25 de junho, Ottoni retirou o projeto; como Caxias teria votado, não consta.
Minha leitura desse conjunto é que essas intervenções desenham uma posição coerente sobre disciplina, tamanho do quadro e promoção por antiguidade, e que ela é a mesma que ele levaria para o Paraguai. É leitura, não constatação: o que os Anais provam são os apartes e a assinatura.
A solução de outubro
Em 10 de outubro de 1866, dois decretos foram assinados no mesmo dia. Um nomeou Caxias "commandante das forças do imperio em operações contra o Paraguay". O outro o promoveu "á effectividade" do posto de marechal de exército, que ele até então ocupava por graduação.21 A Parte Official de 21 de outubro, ao listar os nove oficiais postos à sua disposição, usa fórmula um pouco diferente, "commandante em chefe das forças do imperio em operações contra o Paraguay"; Pederneira fora designado em 12 de outubro.21 A íntegra do decreto, com assinatura e com a definição exata dos poderes sobre a esquadra, não foi localizada: não está na Coleção das Leis de 1866, onde os decretos de nomeação pessoal não entravam, e sua busca continua no Diário Official daqueles dias e nos arquivos.
A nomeação unificava o comando das forças brasileiras, até então repartido entre chefes que não se entendiam. Não tornava Caxias comandante supremo da aliança: pelo tratado, esse posto continuava com Mitre enquanto a guerra se travasse em território paraguaio.66 30 50
A nomeação foi noticiada pelo Correio Mercantil de 11 de outubro em uma linha, dentro de um pacote de notícias: Ferraz deixava a pasta da Guerra "a seu pedido", recebia o título de barão da Uruguaiana e uma cadeira no Conselho de Estado; Paranaguá assumia interinamente.21 A simultaneidade é fato documentado. Se a saída de Ferraz foi condição posta por Caxias para aceitar, a fonte não diz.
E aqui está o limite desta pesquisa, declarado uma vez para não voltar mais. Não foi localizado nenhum documento que registre um convite formal a Caxias em 1866, uma recusa anterior, ou as condições que ele teria exigido para aceitar. Capistrano de Abreu escreveu em 1903 que o nome de Caxias fora lembrado "desde o começo", e que considerações políticas dos governantes e melindres pessoais do general adiaram a solução.6 Whigham atribui o afastamento inicial à oposição conservadora, à relação com Zacarias e à hostilidade contra Ferraz, e afirma que Caxias reuniu-se com os ministros antes de partir para obter apoio às medidas que julgasse necessárias.66 Doratioto liga a aceitação à recomposição do Ministério da Guerra e da presidência do Rio Grande do Sul.50 São reconstruções de três historiadores, apoiadas em pesquisa própria, e assim ficam nomeadas neste capítulo. A correspondência que as converteria em fato documentado não está no material reunido até aqui.
A versão oficial, essa existe, e é tardia. O relatório que o ministro Paranaguá apresentou às Câmaras em 1867 explica a nomeação em termos administrativos: convinha "concentrar todos aquelles recursos sob uma só direcção, dar unidade ao commando das forças e uniformisar a acção do mesmo commando, entregando-o a uma reputação militar, como tal reconhecida no Imperio".32 Escrito depois do fato, por um ministro que precisava justificar a demora das operações, o texto não menciona Curupaiti, nem Polidoro, nem Porto Alegre, nem Tamandaré. A palavra que ele usa é unidade.
Caxias embarcou em 22 de outubro no paquete francês Carmel. Dois dias depois o navio arribou ao Rio por avaria no cilindro, e em 26 um amigo mandou rezar missa em ação de graças pela volta.21 A partida definitiva também não foi simples: em 27 de outubro o Correio Mercantil noticiava que "por causa do máo tempo, não seguirá hoje para o Rio da Prata o vapor Arinos, que deve conduzir o Sr. marechal de exercito marquez de Caxias". Na mesma página, a seção de meteorologia registrava o temporal da véspera, catorze milímetros de chuva durante o dia e vinte e dois durante a noite.21 Foi nessa mesma edição que saiu, na primeira página, o relatório de Curupaiti com os 1.854 homens fora de combate. Quem abrisse o jornal naquele sábado lia a conta do desastre e, virando a folha, a nota sobre o vapor que não partia.
Em 5 de novembro ele seguiu de Montevidéu para Buenos Aires com o estado-maior, e chegou no dia 6.21 66 A data em que assumiu o comando em Tuiuti não é pacífica: Whigham e Schneider dão 17 de novembro, e o relatório do Ministério da Guerra de 1867 dá 18, dizendo que nessa data ele publicou a primeira ordem do dia.66 30 A ordem do dia número um não foi localizada. Enquanto não for, as duas datas ficam registradas.
Como a escolha foi explicada em público
Em 12 de novembro, o Correio Mercantil publicou o editorial que justificava a nomeação. O argumento é o mesmo que o ministério usaria depois: a falta de "unidade de acção, cuja falta é hoje por todos reconhecida como uma das principaes causas da demora" das operações desde o Estero Bellaco. O jornal aproveitou para desmentir "rumores vagos" de que Caxias e Francisco Otaviano, "discordes nos principios de politica interna", não se entenderiam no Prata.21 O correspondente do Rio Grande registrava a expectativa local com uma frase seca: "ha quem pense que acabarão as rivalidades existentes entre os generaes."21
O mesmo jornal informava, invocando "cartas dignas de fé", que Osório teria escrito a Caxias prometendo forças para dezembro e que Flores estaria "nas melhores relações" com o novo comandante. As cartas não foram consultadas; o que existe é a notícia.
Convém dizer o que esse jornal era. O Correio Mercantil era folha liberal alinhada ao gabinete, não órgão oficial do governo. A justificativa que ele deu à nomeação é, portanto, a versão de um lado, publicada quando convinha publicá-la. A voz da oposição sobre o mesmo episódio não foi localizada: o Jornal do Commercio está com acesso restrito na Biblioteca Nacional, e o Diário do Rio de Janeiro daqueles meses ainda não foi consultado.
Quatro anos depois, quando a guerra já acabara, Sátiro de Oliveira Dias publicou uma polêmica que mostra como a nomeação fora incorporada à disputa partidária: os liberais a apresentavam como prova de patriotismo do general, e os adversários negavam que tivesse tido qualquer caráter excepcional.33 O documento serve para entender a recepção política posterior. Não serve para narrar o que foi decidido em outubro de 1866.
Caxias tinha sessenta e três anos e recebia mais uma vez uma guerra que outros haviam começado e não sabiam terminar. Antes tinham sido o Maranhão, Minas e São Paulo, o Rio Grande do Sul e a campanha contra Oribe e Rosas. Nenhuma delas o encontrara na posição em que agora estava: marechal efetivo, senador do Império e conselheiro de guerra. O que recebia, porém, não era um exército pronto. Era o que o relatório de 1863 já descrevia, agora em campanha há dois anos, acampado em terreno alagadiço, com o comando repartido e a opinião pública impaciente. A parte difícil começava na chegada.
Referências
Obras citadas nesta página, na ordem em que aparecem no texto.
Fontes primárias e documentos de época
- ABREU, J. Capistrano de. "O Duque de Caxias". Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 4 ago. 1903. Reproduzido na Revista do IHGB, t. LXIX, parte II, 1906, e depois em Ensaios e estudos, 2ª série, 1932. https://horadopovo.com.br/o-duque-de-caxias-por-capistrano-de-abreu/
- Anais do Senado do Império, 1866, livro 2. Brasília: Senado Federal. https://www25.senado.leg.br/web/atividade/anais/anais-do-imperio
- Anais do Senado do Império, 1866, livro 3. Brasília: Senado Federal. https://www25.senado.leg.br/web/atividade/anais/anais-do-imperio
- BRASIL. Coleção das Leis do Império do Brasil, 1856 a 1875: leis, decretos e avisos citados neste texto. Rio de Janeiro: Typographia Nacional. https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/legislacao/colecao-anual-de-leis
- BRASIL. Ministério da Guerra; JORDÃO, Polidoro da Fonseca Quintanilha. Relatório da Repartição dos Negócios da Guerra apresentado à Assembleia Geral Legislativa. Rio de Janeiro, 1863. Center for Research Libraries, Brazilian Government Documents / Ministerial Reports, registro 2390, catalogado como “Relatorio, 1862”.
- Correio Mercantil, Rio de Janeiro, edições de 1862 e de outubro e novembro de 1866. Hemeroteca Digital Brasileira, Biblioteca Nacional. https://memoria.bn.gov.br/
- Anais do Senado do Império, 1864, livro 4. Brasília: Senado Federal. https://www25.senado.leg.br/web/atividade/anais/anais-do-imperio
- BRASIL. Ministério da Guerra; FERRAZ, Angelo Moniz da Silva. Relatório da Repartição dos Negócios da Guerra apresentado à Assembleia Geral Legislativa. Rio de Janeiro, 1866. Center for Research Libraries, Brazilian Government Documents / Ministerial Reports.
- SCHNEIDER, Luiz. A Guerra da Tríplice Aliança contra o governo da República do Paraguai, 1864-1870, v. 1. Tradução de Manoel Thomaz Alves Nogueira, notas de José Maria da Silva Paranhos. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1902. https://bd.camara.leg.br/bd/handle/bdcamara/40891
- Anais do Senado do Império, 1865, livro 2. Brasília: Senado Federal. https://www25.senado.leg.br/web/atividade/anais/anais-do-imperio
- PARANHOS, José Maria da Silva. Carta ao Marquês de Caxias. Montevidéu, 24 fev. 1865. Arquivo Nacional, fundo RT, código BR RJANRIO RT.0.CAI.0018. https://sian.an.gov.br/
- SCHNEIDER, Luiz. A Guerra da Tríplice Aliança contra o governo da República do Paraguai, 1864-1870, v. 2. Tradução de Manoel Thomaz Alves Nogueira, notas de José Maria da Silva Paranhos. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1902. https://bd.camara.leg.br/bd/handle/bdcamara/40891
- Anais do Senado do Império, 1866, livro 4. Brasília: Senado Federal. https://www25.senado.leg.br/web/atividade/anais/anais-do-imperio
- BRASIL. Ministério da Guerra; PARANAGUÁ, João Lustosa da Cunha, marquês de. Relatório da Repartição dos Negócios da Guerra apresentado à Assembleia Geral Legislativa. Rio de Janeiro, 1867. Center for Research Libraries, Brazilian Government Documents / Ministerial Reports.
- DIAS, Sátiro de Oliveira. O Duque de Caxias e a Guerra do Paraguay: estudo crítico-histórico. Bahia: Typographia do Diario, 1870. https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/5319
Biografias, estudos e obras de referência
- DORATIOTO, Francisco. "Caxias no Prata: da Guerra da Cisplatina à da Tríplice Aliança". Revista do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil, v. 63, n. 89, p. 39-55, 2003. https://portaldeperiodicos.marinha.mil.br/index.php/ighmb/article/view/3532
- BENTO, Cláudio Moreira. Duque de Caxias: o patrono do Exército Brasileiro. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2022. 488 p. https://www.eceme.eb.mil.br/images/biblioteca/duque_de_caxias_o_patrono_eb.pdf
- FRANCO, Álvaro da Costa (org.). Com a palavra, o Visconde do Rio Branco: a política exterior no Parlamento Imperial. Rio de Janeiro: CHDD; Brasília: FUNAG, 2005. https://funag.gov.br/biblioteca-nova/produto/1-728-com_a_palavra_o_visconde_do_rio_branco_a_politica_exterior_no_parlamento_imperial
- PIMENTEL, José Vicente de Sá (org.). Pensamento Diplomático Brasileiro: formuladores e agentes da política externa, 1750-1964, v. 1. Brasília: FUNAG, 2013. https://funag.gov.br/loja/download/1-Pensamento-Diplomatico-Brasileiro-Vol1.pdf
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