Capítulo 9 de 12

O comando no Paraguai

A reorganização do exército, Tuiuti, Tuiu-Cuê e as operações até a passagem de Humaitá.

Antes de chegar ao acampamento, Caxias já tinha começado a trabalhar. Em Corrientes, em 16 de novembro de 1866, comunicou oficialmente ao almirante Tamandaré que a esquadra deixava de operar por conta própria e passava à sua autoridade direta. Ofereceu-lhe uma licença. Tamandaré pediu dispensa no dia seguinte.66 Foi o primeiro ato do novo comando, e aponta para o problema que ele fora mandado resolver. Faltavam homens, animais e equipamento, como se verá. Mas faltava sobretudo uma autoridade brasileira que respondesse ao mesmo tempo pelo exército e pela esquadra.

Pelo caminho ele também inspecionara os hospitais e depósitos brasileiros de Montevidéu, Buenos Aires e Corrientes, e mandara fundir os hospitais de Buenos Aires em Montevidéu. O relatório do Ministério da Guerra apresentado no ano seguinte justificaria a medida pela economia de uma administração e pela viagem que poupava aos doentes.32 Sátiro de Oliveira Dias, que quatro anos depois publicaria a crítica mais dura ao seu comando, concede o ponto: diz que ele reformou repartições e hospitais em Corrientes e mandou de volta ao campo oficiais e soldados que vagavam como doentes, herança do que chama de comando indefinido de Polidoro depois da saída de Osório.33

Em Buenos Aires, em 6 de novembro, prometera ao governo argentino vinte mil homens de reforço até o fim do ano e anunciara que Osório tinha quinze mil prontos no Rio Grande para invadir por Encarnación.66 Eram promessas de comando, não tropa embarcada, e convém lê-las como tais.

A posse

Ilustração em preto e branco de Caxias a cavalo à frente de tropas
Ilustração posterior de Caxias à frente das tropas. A cena sintetiza visualmente o comandante, sem identificar um combate específico.

Assumiu o comando em Tuiuti e expediu a primeira ordem do dia, anunciando a assunção e proibindo aos oficiais coberturas de cabeça e dragonas distintivas. A data mais registrada é 18 de novembro de 1866; a nota cronológica de Paranhos dá 17, e o capítulo anterior deixou as duas registradas, porque a ordem do dia número um não foi localizada.66 30 60

Aquela ordem documenta a assunção do comando das forças brasileiras, exército e esquadra do Brasil. Não do comando aliado. Pelo artigo 3.º do Tratado da Tríplice Aliança, o comando em chefe dos exércitos aliados continuava com Mitre enquanto a guerra se travasse em território paraguaio, e a esquadra brasileira nunca fora subordinada a ele.30 50 A distinção parece técnica e não é: dela dependem dois anos de atritos.

Havia uma assimetria nessa arquitetura que vale registrar sem convertê-la em queixa nacional. Mitre era brigadeiro-general argentino, e o Brasil lhe subordinara marechais.30

Na transição, Porto Alegre pediu licença e passou Curuzú ao general Argolo.30 Polidoro, ao contrário do que diz o corpo do texto de Schneider, não deixou o teatro naquele novembro: continuou comandante do 1.º corpo até 10 de maio de 1867, quando saiu doente. A retificação é do próprio anotador da obra, Paranhos, em nota de rodapé, e é o caso raro em que o anotador corrige o autor dentro do mesmo volume.30

Sátiro registra ainda uma cena que não tem confirmação em outra fonte: em Tuiuti, Caxias teria prometido a oficiais que pediam licença que em maio de 1867 estaria de volta ao Senado e eles nas suas províncias.33 O episódio vem de um adversário e serve como tal, mas é coerente com o clima de quem chegava para resolver a guerra em uma estação.

Quatro fases de um comando

O marquês de Caxias no Paraguai por volta de 1866
O marquês de Caxias no Paraguai, em imagem identificada como de cerca de 1866.

A posição de Caxias dentro da aliança mudou quatro vezes em dois anos, e quase toda confusão sobre esse período vem de tratar as quatro como uma só.

Na primeira fase, de novembro de 1866 a fevereiro de 1867, ele comandou apenas as forças brasileiras, sob o comando geral de Mitre. As relações eram formalmente cordiais e ele concordava que nada se devia arriscar que pudesse acarretar uma retirada.30 66 Cordialidade formal não é amizade: Whigham observa que os dois nunca se estimaram pessoalmente.66

A segunda fase começou com uma revolução em outro país. As montoneras de Cuyo e La Rioja obrigaram Mitre a voltar à Argentina em 9 de fevereiro de 1867, levando entre três mil e seiscentos e quatro mil homens e deixando o contingente argentino reduzido a menos de quatro mil, sob Gelly y Obes. Caxias tornou-se comandante em chefe interino dos aliados.66 30 60 A cronologia de Bento registra o dia 10 em vez do 9; a diferença de um dia não muda nada, mas fica anotada.

A terceira fase durou de julho de 1867 a janeiro de 1868. Mitre voltou ao acampamento no fim de julho e reassumiu o comando geral por ordem do dia. Tecnicamente voltou a mandar; na prática, Caxias conservou autoridade extensa.34 66 33 60 O diário do exército registra a ordem do dia de Mitre entre 1.º e 2 de agosto. Bento data o retorno em 22 de julho, contra o diário e contra Whigham, e nesse caso prevalece o registro contemporâneo.

A quarta fase teve dois atos. Primeiro a morte do vice-presidente argentino Marcos Paz, que obrigou Mitre a voltar definitivamente a Buenos Aires; Doratioto data a morte em dezembro de 1867, Whigham em 2 de janeiro de 1868, de cólera, e a diferença desloca a sucessão em semanas.50 66 Depois a passagem formal do comando aliado a Caxias, que Whigham situa em 12 de janeiro de 1868, dois dias antes da partida de Mitre.66 50 O que era de fato havia quase um ano tornou-se de direito.

Reconstruir um exército no meio da guerra

O que Caxias recebeu em novembro de 1866 ele próprio descreveria no Senado em 1870, num discurso que Bento e Doratioto citam e que ninguém desta pesquisa leu no original: hospitais em grande número com cerca de um terço da força baixada, dois corpos de exército com contabilidade, promoção e pagamento próprios, cavalos poucos e em mau estado, a cavalaria do 2.º corpo a pé, falta de carros, e uma reorganização que lhe consumiu quatorze meses.60 50 Enquanto os Anais de 1870 não forem consultados, esse diagnóstico continua sendo o que dois autores dizem que ele disse.

O quadro de efetivos que Paranhos publicou para 12 de fevereiro de 1867, antes da cólera, estava ilegível na camada de texto do arquivo digitalizado e foi lido na página impressa para este capítulo. A força pronta do exército brasileiro em operações somava 31.175 homens, sendo 2.133 oficiais e 29.042 praças, distribuídos em 671 dos corpos especiais, 1.821 de artilharia, 6.736 de cavalaria e 21.947 de infantaria. Excluídos doentes e empregados, o total aliado no mesmo dia era de 35.975 homens: os 31.175 brasileiros, 4.000 argentinos sob Gelly y Obes e 800 orientais sob Henrique Castro.30 O que mede o efeito da epidemia sobre esse exército é uma carta do almirante ao ministro da Marinha, de 30 de março de 1867, que Schneider reproduz: "Temos apenas 16.000 infantes e 6.000 praças de cavallaria: d'estas só 4.000 estão montadas. O que falta para 40.000 e tantos homens está nos hospitaes."30 Os números da carta não são comparáveis aos do quadro de fevereiro, que contava a força pronta e não o total, mas a frase do almirante dispensa comparação: seis semanas depois do quadro, quem escrevia do teatro de operações media o exército pelo que faltava.

Um segundo documento continua ilegível: o mapa geral de força de 28 de agosto de 1867, que traz o exército por corpo em prontos, empregados e doentes e distribui os enfermos por seis hospitais. É primário e está corrompido justamente nos números.34 Nenhum efetivo de agosto de 1867 aparece neste capítulo.

O que se pode afirmar sem número é o sentido do trabalho. Dez mil guardas nacionais foram mobilizados, os primeiros quinhentos embarcados ainda em outubro de 1866, e mais oito mil foram chamados em 14 de março de 1867, em consequência da retirada parcial argentina.30 14 Os reforços efetivamente recebidos pelo exército brasileiro entre agosto de 1866 e julho de 1867 andaram por 19.200 homens, número que Paranhos toma do relatório do Ministério da Guerra de 1867.30 32 Whigham registra que Caxias convenceu o governo a importar dos Estados Unidos cinco mil fuzis de retrocarga Roberts e dois mil repetidores Spencer, informação que não tem documento correspondente neste corpus e que fica creditada a ele.66

A cólera

Gravura satírica com a cólera assustando Caxias e Solano López
A cólera assusta Caxias e Solano López em gravura satírica publicada por Cabrião em 12 de maio de 1867.

Em fevereiro de 1867 a cólera chegou ao Rio de Janeiro. Em 26 de março apareceu em Paso de la Patria, e em poucos dias percorreu o exército brasileiro.30 66 Alguns comandantes riscaram a palavra cólera dos comunicados e proibiram a presença de correspondentes, o que Whigham registra como prática de censura.66

Em Curuzú, segundo Schneider, a epidemia atingiu quatro mil homens e matou cerca de dois mil e quatrocentos, entre eles oitenta e sete oficiais, e cinquenta homens trabalhavam dia e noite abrindo covas.30 66 Em Tuiuti a epidemia não teve o mesmo caráter devastador, mas em maio os acometidos chegaram a não menos de onze mil. Em Buenos Aires morreram cerca de mil e quinhentas pessoas entre 3 e 25 de abril.

Segundo Schneider, a mortalidade foi a causa real do abandono de Curuzú, decidido em 29 de maio de 1867 e completado em 4 de julho, com o material e o trem transferidos para Tuiuti. Oficialmente, atribuiu-se a evacuação à enchente do rio Paraguai. Quem separa as duas versões é o próprio Schneider, que escreve que a enchente foi o pretexto e que "a causa real foi a immensa mortalidade". A distinção é dele, não uma conclusão documental independente, e é assim que entra aqui.30

As medidas sanitárias que Whigham atribui a Caxias foram alojamentos lavados diariamente, água mineral engarrafada trazida do Rio, o saneamento entregue ao doutor Francisco Pinheiro Guimarães com isolamento e enfermarias especiais, e uma caça a simuladores que devolveu homens ao serviço. A epidemia cedeu em meados de maio de 1867.66 Não há documento brasileiro correspondente neste corpus, e o crédito é do historiador.

Havia base regulamentar para essa disciplina. O diário registra, em 5 de agosto de 1867, ordens terminantes de asseio dos acampamentos do 1.º e do 3.º corpos para evitar doenças.34 E a epidemia ainda matava naquele agosto: o mesmo diário anota um óbito de cólera no acampamento em 18 de agosto.34

A disciplina tinha outra face. Em 22 e 23 de agosto de 1867 executou-se um soldado do 10.º batalhão condenado por ferir o alferes ajudante do corpo. O recurso de graça ao imperador foi indeferido e Caxias determinou o cumprimento da sentença diante de contingentes dos três corpos.34 Não é rotina nem deve ser omitido: mostra o circuito da justiça militar daquele exército, que ia da sentença em campanha até a mesa do imperador e voltava.

A cavalaria foi o ponto que menos se recuperou. Animais morriam por vegetação imprópria, divisões inteiras ficaram apeadas, e a reposição dependia de alfafa e milho comprados caro a fornecedores argentinos.50 34 66 Em 30 de agosto de 1867 o diário ainda registrava divisões sem montaria.

Um capítulo à parte é o dos balões. Dois aeróstatos comprados nos Estados Unidos aos irmãos Allen chegaram a Tuiuti em 31 de maio de 1867. A data da primeira ascensão varia entre 24 de junho, em Bento e em Sátiro, e 8 de julho, na nota de Paranhos.60 30 33 34 Em 14 e 15 de agosto o balão revelou as posições inimigas e mostrou que as trincheiras corriam sem interrupção de Tuiuti a Humaitá. Os paraguaios responderam acendendo fogueiras de fumaça.

Bento afirma ainda que Caxias criou, ao assumir, um Livro Registro de Prisioneiros, que ele próprio teria localizado em 1980 e remetido ao Arquivo Histórico do Exército.60 Ninguém desta pesquisa viu o livro.

Da paralisia à marcha de flanco

Depois de Curupaiti, a frente principal ficou praticamente imóvel até julho de 1867. Schneider fala em quinze meses de inação em Tuiuti, contados de 20 de maio de 1866 a 21 de julho de 1867, mas a conta é dele e alcança meses em que houve operação: a tomada de Curuzú e o assalto a Curupaiti são de setembro de 1866. O que ficou parado, e por quase um ano, foi a frente depois da derrota. Sob Caxias, os bombardeios contra Curupaiti consumiram munição em quantidade com efeito diminuto: Paranhos calcula cerca de cem paraguaios mortos em todo o período, número que ele próprio produz para rebater Thompson e que deve ser lido nessa chave.30 66 Os paraguaios respondiam com escárnio e cortinas de fumaça.

Chamar aquilo de paralisia é exato e insuficiente, porque era também o tempo em que o exército estava sendo refeito. Paranhos sustenta que Caxias tencionava abrir operações em princípios de abril de 1867 e que o adiamento para julho se deveu à cólera.30 É a versão do anotador, escrita para defender, não documento do comando.

O plano que finalmente desbloqueou a frente não foi dele. Contornar o Quadrilátero pelo sul até Tuyú-Cuê, cortar a estrada de Humaitá a Assunção e fechar o cerco em Tayí foi proposto por Mitre em carta a Caxias de 17 de abril de 1867, e Caxias o abraçou.66 33 A carta é conhecida por citação de Whigham, e o mérito da concepção não pode ser atribuído a Caxias. Havia precedentes: um reconhecimento de Flores em setembro de 1866 e cartas do brigadeiro Paranhos em 1866 já propunham contornar o flanco.

A retomada ocorreu entre 20 e 22 de julho de 1867, e as fontes não concordam no dia: Paranhos data o início em 21, a cronologia da fonte principal em 22, Whigham narra Osório saindo de Tuiuti às seis da manhã do dia 22 seguido por cerca de trinta e cinco mil homens, e Sátiro situa o movimento no dia 20.30 66 46 33 Em 29 de julho a força avistou as torres de Humaitá e tomou Tuyú-Cuê; o grosso estabeleceu-se ali em 31.66 33 34

A nova posição ficava a menos de dez milhas de Humaitá, e a linha de suprimento, de cerca de quarenta milhas, ficou exposta a guerrilhas.66 Whigham interpreta que Caxias quis apresentar a Mitre um fato consumado antes de seu retorno; é leitura dele, e não vem com documento.

Tuyú-Cuê

O mês de agosto de 1867 é o único do comando inteiro para o qual existe registro diário. Os Diários do Exército em Operações mostram a rotina: inspeções matinais, conferências com Mitre e com os comandantes de corpo, uso do telégrafo, ordens do dia brasileiras numeradas de 107 a 120 correndo em paralelo às de Mitre, gestão de comboios e reconhecimento por balão.34 É um diário oficial e não registra a voz pessoal de Caxias, o que também é um dado: o comando aparece ali como administração contínua, não como sequência de decisões dramáticas.

Em 15 de agosto, dez encouraçados sob Inhaúma forçaram o passo de Curupaiti entre cerca das sete e as nove menos um quarto da manhã. O diário transcreve a comunicação do vice-almirante com as avarias graves no Tamandaré, rebocado com a máquina inutilizada, e no Colombo, os mortos e feridos, e o ferimento grave do capitão de fragata Elisiário José Barbosa. Whigham registra duzentos e quarenta e seis impactos e trinta e três mortos e feridos.34 66

Logo em seguida veio a crise entre os dois comandos. Inhaúma pediu provisões sob pena de recuar com os encouraçados; Caxias mandou-o voltar à ancoragem anterior; López reenviou canhões a Curupaiti e a esquadra ficou encurralada entre as baterias. No choque com Mitre, em 26 e 27 de agosto, Caxias sustentou que os assuntos da Marinha eram responsabilidade exclusivamente brasileira.66 A subordinação da esquadra ao comando brasileiro, que fora o primeiro ato do seu comando, tinha um custo operacional real, e ele o pagou naquele mês.

Há um ofício reservado de 11 de setembro de 1867, escrito de Tuyú-Cuê ao ministro da Guerra, em que Caxias teria declarado que o tratado não dava a Mitre o comando da força naval, que a passagem de Humaitá seria feita se fosse humanamente possível, e que suspeitava que Mitre quisesse destruir a esquadra para eliminar a preponderância do Império no Prata. O documento está no Arquivo Nacional e é conhecido, nesta pesquisa, apenas pela citação de Doratioto.50 66 A suspeita contra o comandante aliado é grave demais para ser tratada como posição comprovada antes de alguém ler o original.

A missão do britânico Gould atravessou esse mesmo período. O diário registra que Mitre consultou Caxias em 14 de agosto sobre o livre passo da canhoneira que levaria o secretário da legação, e que López recusou a subida do navio em 18 de agosto, aceitando receber o emissário em Curuzú.34 O que se negociou depois não está no diário: os termos aliados, que incluíam integridade territorial, troca de prisioneiros, nenhuma reparação, evacuação de Mato Grosso e a saída de López, foram recusados por intermédio de Caminos, que invocou a honra nacional contra a deposição do presidente.66 Washburn atribuiu a recusa às notícias de revoluções argentinas; Whigham considera que López desperdiçou os melhores termos que lhe ofereceram. As duas leituras ficam registradas.

Entre agosto e outubro a guerra foi de combates parciais de cavalaria, quase todos sem Caxias presente: São Solano em 3 de agosto e 6 de setembro, Pilar em 20 de setembro com emboscada no Paso del Ombú em 24, Parecué em 3 de outubro.33 34 66 Em 21 de outubro, em Tataiybá, cerca de cinco mil cavalarianos paraguaios emboscaram força brasileira atrás de palmeirais; Whigham dá quatrocentos paraguaios mortos, cento e setenta e oito prisioneiros e cerca de cento e cinquenta baixas brasileiras, e lê o episódio como demonstração da capacidade tática de Caxias.66 Os números vêm de uma única síntese.

Em 2 de novembro de 1867 a expedição de Tayí, executada por João Manuel Mena Barreto, completou o cerco terrestre de Humaitá. Prisioneiros tomados no Pilar haviam revelado a passagem de Potreiro-Ovella.33 66 Sátiro dá menos de vinte mortos brasileiros contra mais de cento e sessenta paraguaios, cifras de testemunho polêmico.

E aqui começa a acusação mais séria que se fez ao comando. A partir de 5 de novembro López abriu uma estrada pelo Chaco para manter comunicação com Humaitá, movimento visível de Tayí e comunicado a Caxias por Porto Alegre. A esquadra não completou o cerco fluvial, e a rota se manteve.33 Sátiro sustenta que a esquadra deveria ter passado imediatamente e que as condições do rio naqueles meses permitiam. A acusação fica registrada como acusação: as condições que ele alega não foram verificadas nesta pesquisa.

Em 3 de novembro, cerca de nove mil paraguaios atacaram Tuiuti pela segunda vez. Romperam a primeira linha, a pilhagem degenerou em saque, Porto Alegre reorganizou a defesa e contra-atacou. Os paraguaios levaram prisioneiros, peças e a bandeira do 4.º batalhão de artilharia.66 30 As baixas têm quatro versões, de Mitre, da estimativa brasileira, de Thompson e de El Semanario, e nenhuma é adotada aqui.

No fim de 1867 a frente parou outra vez. Uma ferrovia brasileira no Chaco transportava dezenas de toneladas diárias para a esquadra; Inhaúma, doente, recusava avançar alegando depender de monitores em construção.66 Whigham atribui a espera à cautela de Caxias, ao calor, à espera de reforços e de muares, e ao fato de o exército aliado ter se tornado, na prática, o exército dele. É interpretação, e vem separada do dado logístico.

Em fevereiro de 1868 Caxias dirigiu duas cartas ao ministro da Guerra pedindo licença para renunciar por motivo de saúde, e queixou-se em carta particular da imprensa liberal.66 As cartas são citadas por Whigham e não foram lidas no original; o episódio, porém, é peça central da relação entre o comandante e o governo, e não pode ser omitido por isso. Em 19 de fevereiro Zacarias ofereceu a renúncia do gabinete e o imperador o convenceu a ficar; conservadores e o próprio Zacarias escreveram a Caxias reafirmando confiança.66 Whigham avalia que a crise foi adiada, não resolvida, e os meses seguintes lhe dariam razão.

Humaitá

Representação da passagem da esquadra brasileira pelas fortificações de Humaitá
A passagem da esquadra brasileira pelas fortificações de Humaitá.

Em 19 de fevereiro de 1868, sob pressão de Caxias, Inhaúma enviou o genro, comodoro Delphim Carlos de Carvalho, a forçar as baterias de Humaitá e Timbó com três pares de encouraçados. A travessia durou mais de quarenta minutos sob fogo de cerca de cento e cinquenta canhões, sem nenhum morto aliado, com avarias pesadas no Bahia, no Tamandaré e no monitor Alagoas, de Maurity.66 33 Sátiro contesta a distribuição do crédito: para ele os heróis foram Silveira da Mota e Maurity, e o título ficou com Delphim.

No mesmo dia, cerca de sete mil aliados atacaram o Estabelecimento de la Cierva, defendido por cerca de quinhentos homens, com baixas brasileiras muito superiores às paraguaias. Whigham considera que se tomou, por erro de informação topográfica, uma posição sem valor.66 33 Sátiro acrescenta que a posição foi abandonada no mesmo dia e que a brigada de Tibúrcio sofreu por falta de escadas e salsichões deixados na retaguarda.

Em 24 de fevereiro Delphim bombardeou Assunção por quatro horas, com efeito quase nulo, e foi feito barão da Passagem. Nenhum encouraçado ficou entre Timbó e Humaitá, o que Whigham qualifica como erro que permitiu a López manter aberta a rota do Chaco.66 33

Em 3 de março de 1868 López deixou o grosso do exército em Humaitá e partiu para Timbó, instalando novo quartel-general em San Fernando, no Tebicuary. A guarnição ficou com cerca de três mil homens sob o comando conjunto de Francisco Martínez e Paulino Alén.66 Essa data importa, porque a saída de López e a evacuação da fortaleza são dois acontecimentos separados por quatro meses, e é comum vê-los confundidos.

O Quadrilátero esvaziou-se naquele mês. Depois de ataques coordenados em 21 de março, Curupaiti foi encontrada abandonada no dia 22, com canhões falsos feitos de troncos e sentinelas de palha. Meses antes, dez a doze mil homens já haviam saído de Humaitá, fato que os aliados souberam em 11 de março e descartaram por duas semanas.66 É falha de inteligência, e fica registrada sem que se procure explicá-la por psicologia.

Em maio a expedição de Ignacio Rivas cortou a última rota de abastecimento pelo Andaí, com combates em 2 e 5 de maio.66

Em julho de 1868 há uma questão de data que este capítulo não resolve. Whigham narra um assalto geral a Humaitá em 15 de julho, com primazia do 3.º corpo de Osório, desfeito pela metralha, com perdas aliadas da ordem de dois mil homens. Sátiro e a iconografia reunida por Bento registram um reconhecimento de Humaitá em 16 de julho.66 33 60 Podem ser a mesma ação com datas divergentes ou duas ações em dias sucessivos. Enquanto as ordens do dia de julho de 1868 não aparecerem, as duas possibilidades ficam abertas.

A evacuação da guarnição foi um engodo bem executado, e as páginas de Whigham que a narram foram conferidas na imagem para este capítulo. Na noite de 24 de julho cerca de mil e duzentos homens saíram em trinta canoas, em oito horas, sem que ninguém notasse. Ao nascer do dia seguinte houve salva de vinte e um tiros pelo aniversário de López e bandas tocando nas trincheiras avançadas, para que os aliados ouvissem uma fortaleza ocupada. A música cessou à meia-noite de 26, com uma descarga e vivas, e às cinco da manhã seguinte o último homem deixou Humaitá, com as peças encravadas. Os aliados perceberam cerca de dez horas depois, e Caxias ocupou a posição sem perder tempo.66 Convém dizer que os mil e duzentos são a leva da primeira noite, não a guarnição inteira, e que o dia exato da saída final não está escrito na fonte.

A coluna evacuada foi cercada em Isla Poí e rendeu-se em 5 de agosto, não a Caxias mas a Rivas: noventa e nove oficiais e mil e duzentas praças, um terço deles feridos.66 São portanto três acontecimentos distintos, e este capítulo os mantém separados: a saída de López em março, a evacuação da guarnição entre 24 e 27 de julho, e a rendição da coluna em 5 de agosto.

Na fortaleza ocupada os aliados encontraram oito milhas de terraplenos e trincheiras, espaço para setenta e oito baterias, mas a maioria das peças já fora levada para a outra margem do rio.66 Whigham considera Humaitá inferior a Curupaiti em posição e em construção, o que é juízo dele.

A queda coincidiu com o terror político do outro lado. O decreto de 2 de agosto de 1868 criou os tribunais de San Fernando, e centenas de homens e mulheres foram executados; a mulher de Martínez foi torturada e fuzilada. A existência de uma conspiração real é rejeitada por Whigham e contestada por Burton e por oficiais norte-americanos.66

Comércio em Lambará, nas proximidades de Humaitá, depois da ocupação aliada
Comércio em Lambará, nas proximidades de Humaitá, depois da conquista aliada, 1868.

A crise de julho e a proposta de paz

Em julho de 1868 a guerra chegou ao gabinete. A Câmara declarou que negava ao governo os meios de sustentar o exército e a esquadra em operações no Paraguai, o gabinete Zacarias caiu, e em 16 de julho organizou-se o gabinete Itaboraí, com Muritiba e Paranhos.35 66 60 Dois dias depois, numa consulta urgentíssima do Conselho de Estado sobre dissolver ou não a Câmara, o voto de São Vicente registrou que a nova maioria era adversa ao general que dirigia a guerra e ao vice-almirante que comandava a esquadra, e que a ascensão conservadora levaria entusiasmo e confiança ao teatro da guerra.35 Houve votos contrários à dissolução, de Abaeté, Jequitinhonha, Nabuco e Sousa Franco. Caxias não participou de nada disso: só tomaria assento no Conselho de Estado em outubro de 1870.

Um mês depois, de Pare-cuê, em 14 de agosto de 1868, ele escreveu ao novo ministro da Guerra, o barão de Muritiba, um ofício confidencial que Doratioto resume assim: ao inimigo só restava refugiar-se no interior, a perseguição custaria mais perdas e mais gastos, as injúrias de López já estavam vingadas, e o melhor era negociar a paz.50 O imperador respondeu que a guerra devia prosseguir até a expulsão de López. Ambos os documentos estão no Arquivo Nacional e nenhum foi lido nesta pesquisa; o que existe aqui é a paráfrase do historiador, e é assim que ficam apresentados. Doratioto conclui que os dois tinham razão, Caxias do ponto de vista militar e Pedro II do político.

Na leitura de Doratioto, o episódio mostra Caxias propondo o encerramento da guerra antes mesmo da ofensiva final do seu próprio comando, posição que não prevaleceu diante do imperador. A guerra ainda duraria até março de 1870, quinze meses depois de ele deixar o comando.

A estrada do Chaco

Combate no Chaco publicado pela Harper's Weekly em outubro de 1868
Combate no Chaco, publicado por Harper's Weekly em 24 de outubro de 1868.

Depois de Humaitá o avanço foi rápido. A cavalaria de Andrade Neves forçou o Yacaré em 26 de agosto e tomou o reduto da margem sul do Tebicuary em 28.66 33 Em 1.º de setembro os aliados ocuparam San Fernando sem resistência e encontraram campo queimado e centenas de cadáveres das execuções, entre eles o de Bruguez.66 López abandonara a posição em 26 de agosto e montara nova linha na foz do Pikysyry e em Angostura, escolhida pelo engenheiro Thompson, com quartel-general em Ita-Ibaté.66 50

Em 23 de setembro, no combate de Surubiy, a cavalaria de Niederauer caiu numa emboscada de falso recuo e a retaguarda inimiga destruiu a ponte.66 Caxias acusou o 5.º batalhão de infantaria de covardia e o dissolveu depois de conselho de guerra, em 28 de setembro. A dissolução é fato. Se a acusação era justa, é disputa: Sátiro a considera injusta e atribui o desastre à travessia incauta de uma ponte não explorada, e Whigham qualifica a punição como mais cruel que a morte.66 33

Há em setembro e outubro de 1868 pelo menos três registros de passagens da esquadra por Angostura, em 7 de setembro segundo Sátiro, um teste das baterias contra o Silvado em 8 de setembro, e uma passagem ordenada por Caxias a Delphim em 1.º de outubro segundo Whigham. Provavelmente são eventos distintos, e não datas concorrentes do mesmo fato, mas isso depende de documentação naval que este corpus não tem.33 66 Nenhuma passagem de Angostura é narrada aqui como episódio único.

A linha do Pikysyry foi reconhecida em 1.º de outubro e julgada impossível de atacar de frente: o arroio estava represado em três pontos, com profundidade maior que a altura de um homem na estrada real, e mais de cem canhões a defendiam.33 66 Caxias decidiu contorná-la pelo Chaco, depois de considerar e rejeitar o avanço pela margem oeste do rio Paraguai. A decisão não foi imediata; houve reconhecimentos e hesitação entre duas hipóteses de contorno.

A estrada do Chaco foi a maior obra do período, e Whigham a considera o feito decisivo dele. Cerca de trinta milhas de traçado contornando lagoas, dezenas de milhares de palmeiras caranday derrubadas sobre terreno alagável, homens trabalhando com água pela cintura, um surto breve de cólera. Caxias visitou o canteiro várias vezes e chegou a duvidar da viabilidade.66 60 50 Quantas pontes teve, as fontes não concordam: Whigham diz cinco, Bento fala em quatro pontes e quatro pontilhões, e este capítulo não harmoniza os dois.

A manobra final começou com um fingimento. Caxias anunciou ataque a Villeta para poder cruzar algumas milhas ao norte, e durante quatro semanas moveu artilharia e munição pela estrada enquanto a esquadra bombardeava Angostura.66 Em 21 de novembro a infantaria principal cruzou de Palmas e acampou em Santa Teresa, no Chaco, ligando-se no dia seguinte ao 2.º corpo de Argolo; cerca de trinta e dois mil homens concentraram-se ali, e uma cheia do rio suspendeu a marcha por algum tempo.66 Em 28 e 29 de novembro Delphim bombardeou Assunção com quatro navios, como diversão, atingindo arsenal, alfândega, estaleiro e o palácio do governo. López não deslocou tropas, e os defensores animaram-se por não haver desembarque.66

Em 5 de dezembro de 1868 brasileiros e argentinos cruzaram o rio Paraguai algumas milhas acima de Villeta, sem oposição. A cavalaria paraguaia de Caminos recuou sem combater. Ao anoitecer havia mais de quinze mil aliados na margem leste, e a cavalaria de Niederauer passara a ponte do Ytororó sem encontrar resistência.66 50 33 Whigham considera a travessia uma das melhores manobras de toda a campanha.

O que veio no dia seguinte pertence ao capítulo seguinte.

Passagem do Chaco, pintura de Pedro Américo de 1871
Passagem do Chaco, óleo sobre tela de Pedro Américo, 1871.

O julgamento dos contemporâneos

Dois anos depois, quando a guerra acabara e Caxias já voltara doente, Sátiro de Oliveira Dias publicou na Bahia o opúsculo que fixou a acusação. O argumento não é o de um detrator vulgar. Caxias não foi general sem mérito, escreve ele, mas também não foi gênio militar; foi administrador regular de tropas e chefe prudente, e a glória das vitórias pertenceria às tropas e aos generais que as dirigiram de perto. A imagem que ele constrói é a de um cometa: López seria o cometa, e Caxias teria rasgado a cauda sem jamais alcançar o corpo.33

As acusações específicas são estas: a paralisia até julho de 1867, que ele próprio desculpa em parte pela revolução argentina e pela cólera; a oportunidade perdida em 31 de julho de 1867; o cerco fluvial nunca completado depois de Tayí; o sangue derramado no Estabelecimento de la Cierva; o reconhecimento de julho de 1868 como sacrifício de Osório; e a lentidão depois de Humaitá. Em compensação, ele elogia a reorganização do exército, a marcha de flanco, Tayí e a estrada do Chaco.33 É um adversário que concede, e por isso vale mais do que um panfleto.

Do outro lado formou-se a defesa institucional, que também tem seus excessos. Bento rejeita como manipulação a acusação de que Caxias e Mitre teriam lançado cadáveres de coléricos rio acima, identificando o documento alegado como panfleto político guardado no Museu Mitre, e registra a resposta de Caxias à acusação parlamentar de excesso de cavalos. A obra de defesa assinada por Brasilicus, entre 1869 e 1872, foi editada às expensas de duzentos e quarenta e dois oficiais.60 Que tanta gente pagasse do próprio bolso para defender um general diz alguma coisa sobre o tamanho do ataque.

Whigham, cento e cinquenta anos depois, chega a um juízo de duas pontas. Considera que os objetivos operacionais dos últimos meses de 1868 foram atingidos de modo eficiente e quase sem derramamento de sangue, com disciplina e engenharia levadas ao máximo, e ao mesmo tempo considera que Caxias demonstrou imperícia ao deixar López escapar da armadilha de Humaitá.66 As duas pontas são do mesmo autor e ficam juntas.

Referências

Obras citadas nesta página, na ordem em que aparecem no texto.

Fontes primárias e documentos de época

  1. BRASIL. Coleção das Leis do Império do Brasil, 1856 a 1875: leis, decretos e avisos citados neste texto. Rio de Janeiro: Typographia Nacional. https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/legislacao/colecao-anual-de-leis
  2. SCHNEIDER, Luiz. A Guerra da Tríplice Aliança contra o governo da República do Paraguai, 1864-1870, v. 2. Tradução de Manoel Thomaz Alves Nogueira, notas de José Maria da Silva Paranhos. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1902. https://bd.camara.leg.br/bd/handle/bdcamara/40891
  3. BRASIL. Ministério da Guerra; PARANAGUÁ, João Lustosa da Cunha, marquês de. Relatório da Repartição dos Negócios da Guerra apresentado à Assembleia Geral Legislativa. Rio de Janeiro, 1867. Center for Research Libraries, Brazilian Government Documents / Ministerial Reports.
  4. DIAS, Sátiro de Oliveira. O Duque de Caxias e a Guerra do Paraguay: estudo crítico-histórico. Bahia: Typographia do Diario, 1870. https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/5319
  5. BRASIL. Exército. Diários do Exército em Operações sob o comando em chefe do Marquês de Caxias. Acampamento em Tuiu-Cuê, agosto de 1867. https://bdex.eb.mil.br/jspui/bitstream/123456789/4336/1/1867_Campanha_do_Paraguay.pdf https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/221691
  6. BRASIL. Conselho de Estado. Atas do Conselho de Estado Pleno: Terceiro Conselho de Estado, 1868-1873. Brasília: Senado Federal; Rio de Janeiro: Arquivo Nacional. https://www25.senado.leg.br/web/atividade/anais/atas-do-conselho-de-estado

Biografias, estudos e obras de referência

  1. SOUZA, Adriana Barreto de. Duque de Caxias: o homem por trás do monumento. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008. 616 p. ISBN 978-85-200-0864-5.
  2. DORATIOTO, Francisco. "Caxias no Prata: da Guerra da Cisplatina à da Tríplice Aliança". Revista do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil, v. 63, n. 89, p. 39-55, 2003. https://portaldeperiodicos.marinha.mil.br/index.php/ighmb/article/view/3532
  3. BENTO, Cláudio Moreira. Duque de Caxias: o patrono do Exército Brasileiro. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2022. 488 p. https://www.eceme.eb.mil.br/images/biblioteca/duque_de_caxias_o_patrono_eb.pdf
  4. WHIGHAM, Thomas L. The Road to Armageddon: Paraguay versus the Triple Alliance, 1866-70. Calgary: University of Calgary Press, 2017. 672 p. https://press.ucalgary.ca/books/9781552388099/