No dia 23 de março de 1846, o conde de Caxias desembarcou no cais do porto do Rio de Janeiro. Havia obtido licença imperial para deixar a presidência do Rio Grande do Sul e assumir a cadeira no Senado. Era a primeira vez que voltava à cidade desde 30 de outubro de 1842, quando partira para combater os farrapos.46
O retorno e a herança de 1845
A guerra tinha sido dura para os Lima. Dois irmãos morreram durante a campanha: Francisco, que em fins de 1843 acompanhava a campanha carregado em sege, faleceu logo depois de chegar à corte, de doença não identificada, e Carlos Miguel, aos 33 anos, morreu no Rio Grande do Sul enquanto acompanhava o irmão pelo interior da província. Dos dez filhos que teve, Francisco de Lima ficava com quatro.46 Na corte esperavam a mulher, Anna Luísa, e as duas filhas, Luiza, de doze anos, e Ana, que completaria dez em junho.46
Caxias voltava conde, senador e marechal-de-campo efetivo, o primeiro Lima a acumular as três distinções. Seu pai fora agraciado barão da Barra Grande, título "sem grandeza" que jamais usou, preferindo ser lembrado como regente; a designação remetia à Confederação do Equador, episódio de que tinha péssimas recordações. Os tios José Joaquim e Manoel da Fonseca só se tornariam nobres na década de 1850, e nenhum dos dois foi senador. Manoel da Fonseca só foi efetivado marechal-de-campo em março de 1846, dois anos depois do sobrinho.46 O título de conde não vinha de linhagem imemorial: era nobreza moderna, devida a serviços prestados à Coroa.46
O Senado
Assumiu a cadeira em 11 de maio de 1846. Achando-se na antecâmara, foram sorteados para recebê-lo os senadores Miranda Ribeiro, marquês de Baependi e Araújo Vianna; introduzido com as formalidades do estilo, prestou juramento e tomou assento.3 Em 5 de junho foi eleito para a Comissão de Marinha e Guerra com 29 votos, na vaga aberta quando o senador Lima e Silva, seu pai, pediu dispensa por motivo de doença.3 46
Sua primeira intervenção de peso foi uma recusa. José Clemente Pereira, o mesmo ministro que assinara as instruções de guerra de 1842, requereu ao Senado cópia das instruções de 25 de outubro de 1842 e de 18 de dezembro de 1844 dirigidas ao conde de Caxias, no curso de uma disputa sobre qual ministério cabia o mérito da pacificação. Caxias respondeu que não era prudente trazer à casa aquelas instruções, atendendo às circunstâncias em que a província do Rio Grande não podia deixar de estar depois de abalo tão violento. Declarou apenas poder certificar ao Senado que as instruções dadas a seus antecessores, as que ele levou e as que se lhe enviaram depois "todas queriam o emprego dos meios de conciliação sem se desprezarem os da força", e que a pacificação não se concluíra antes porque as circunstâncias da rebelião em 1842 não eram as de 1844.3 Os documentos que ele mantivera fora de circulação durante a guerra continuavam, assim, fora de circulação depois dela, agora por decisão sua como senador.3
Duas pautas o ocuparam em seguida, ambas ligadas ao Rio Grande do Sul. Na terceira discussão da resolução que concedia naturalização a colonos e marinheiros estrangeiros, observou que eram consideráveis os serviços prestados pelos colonos de São Leopoldo à província e apresentou artigo aditivo determinando que os estrangeiros estabelecidos nas colônias de São Leopoldo e de São Pedro de Alcântara das Torres que assinassem termo na Câmara Municipal fossem por esse fato reconhecidos cidadãos brasileiros naturalizados, com título passado gratuitamente pelo presidente da província. O aditivo levava sua assinatura à frente das de Maya, do visconde de Olinda, do visconde de Monte Alegre e de Clemente Pereira, entre outros; Vergueiro emendou-o para estendê-lo a todas as colônias, e a resolução foi aprovada com as emendas.3
A segunda pauta era mais pessoal, e voltou à casa na sessão de 21 de agosto de 1846. Como signatário do projeto que autorizava o governo a empregar oficiais da Guarda Nacional rio-grandense no novo regimento de cavalaria criado pela lei de 25 de junho de 1846, argumentou que os três regimentos existentes não tinham oficiais em número suficiente e que os oficiais das províncias do Norte não serviam para a cavalaria do Sul, como a última guerra acabara de mostrar.3 O ministro da Guerra, Santos Barreto, aceitou essa primeira parte e recusou a segunda, que mandava dar postos honorários do Exército a quem por relevantes serviços ainda não os tivesse obtido. Caxias insistiu. Os oficiais da Guarda Nacional do Rio Grande do Sul, disse, foram os que mais serviços prestaram na guerra e os menos bem recompensados, não só em comparação com os demais que serviram naquela guerra, mas ainda com os que serviram nas revoltas do Maranhão, São Paulo e Minas; muitos deles, "alguns até completamente aleijados", achavam-se "reduzidos à última miséria". No Rio Grande do Sul, acrescentou, nenhumas honras se estimavam tanto quanto os distintivos militares, e qualquer outra remuneração pouco efeito produzia. Apresentara o projeto, declarou, com o fim de mostrar aos companheiros de armas que o ajudaram a pacificar a província que não se esquecera deles: agora que tinha a fortuna de sentar-se no Senado, queria concorrer para o pagamento de "uma dívida que julga sagrada".3 60
A rede formada na guerra reaparecia, aqui, convertida em pauta legislativa. Não era um deslocamento do militar para o político: a eleição de 1845, o comando e a presidência provincial pertenciam à mesma trajetória, e a autodefinição de 1840, "mais militar que político", não descreve o que ele fazia no Senado em 1846.61 46
Entre duas guerras
Em 8 e 9 de outubro de 1846 a Coroa o exonerou da presidência do Rio Grande do Sul e do comando em chefe das forças da província; três dias depois reassumiu o Comando de Armas da Corte.46 Seguiram-se anos domésticos. Entre março de 1847 e novembro de 1849 obteve quatro licenças com vencimentos para se afastar da cidade, reassumindo o Comando de Armas em setembro de 1847, outubro de 1848 e março de 1849, até ser exonerado dele em 21 de setembro de 1849.46 Em dezembro de 1847 nasceu Luiz Alves de Lima e Silva, o único filho homem, e o único dos filhos a carregar o "e Silva": as meninas eram só de Lima.46
Em 1849 comprou a parte de seu cunhado, Brás Fernandes Carneiro Viana, na Fazenda Vargem, em Valença, herança da sogra, por seis contos de réis. Depois de se tornar nobre, tornava-se proprietário de lavouras de café.46
O gabinete de 29 de setembro de 1848 devolveu os conservadores ao governo, e com eles a geração formada na década de 1830 sob Bernardo Pereira de Vasconcellos. Dos 111 deputados, apenas um era liberal. Eram todos conhecidos de Caxias: Manuel Felizardo, que o auxiliara no Maranhão; Eusébio de Queirós, com quem policiara as ruas da corte; o visconde de Monte Alegre, que lhe dera cobertura em São Paulo em 1842. Adriana Barreto de Souza resume a mudança de posição em uma frase: ele deixava de ser candidato para ser o general do Partido Conservador.46
A segunda presidência e a campanha de 1851–1852
Em 15 de junho de 1851 foi nomeado outra vez presidente do Rio Grande do Sul; no dia seguinte, comandante-em-chefe do exército do Sul e promovido a tenente-general.46 Recebeu a província em 30 de junho, das mãos do chefe de divisão que a administrava e que declarou entregá-la a um amigo de infância, dispensando-se de detalhar o que Caxias já conhecia "pelo perfeito conhecimento que tem da Província, de suas necessidades, de seus interesses, como de seus recursos".11 O relatório de transmissão descrevia ordem pública sem alteração, rendas provinciais decrescidas mas suficientes, magistratura com carências, tropa de linha "bem armada e disciplinada" e uma Guarda Nacional que o antecessor esperava ver em breve no mesmo estado.11
O mesmo relatório registrava um problema na colônia de São Leopoldo, então com mais de dez mil almas: os colonos supunham-se isentos das obrigações da Guarda Nacional, e a organização da força ali estava por fazer, com 950 guardas qualificados, 170 deles na ativa, depois da intervenção determinada pelo antecessor.11 Cinco anos antes, fora Caxias quem propusera no Senado o caminho mais rápido para que aqueles colonos se tornassem cidadãos brasileiros; a cidadania trazia consigo justamente as obrigações que a colônia agora recusava. Os dois fatos estão documentados; nenhum dos dois documentos estabelece relação entre eles.3 11
A decisão imperial de intervir e a arquitetura da coalizão não foram obra individual de Caxias: resultaram de tratados, negociações diplomáticas e acordos entre os governos aliados. A aliança ofensiva e defensiva entre o Império, Montevidéu e Entre Ríos foi assinada em 29 de maio de 1851, com o objetivo declarado de expulsar do território uruguaio Oribe e as tropas de Buenos Aires, ficando estabelecido que, se o governo de Rosas obstasse a esse objetivo, a aliança se voltaria automaticamente contra ele. As operações começaram por Urquiza, que entrou em território uruguaio em 8 de julho de 1851.50 Caxias comandava 16.200 homens e acumulava a presidência da província: repetia-se, como observa Francisco Doratioto, a fórmula bem-sucedida na Farroupilha de concentrar em uma só pessoa o poder político regional e a liderança militar.50
Dentro dessa moldura, tomou decisões próprias. Desconfiava de Urquiza e temia falta de coordenação entre as tropas brasileiras, argentinas e coloradas; para preveni-la, enviou o tenente-coronel Osório, seu antigo emissário junto aos farroupilhas, a combinar as operações com o caudilho. Nas instruções, escreveu que o plano de campanha devia ser feito de modo que, ao mover-se o exército brasileiro para invadir o Estado Oriental, não restasse dúvida do movimento dos demais aliados no mesmo sentido, "de forma que não possam recuar e deixar as forças imperiais comprometidas".50 Transpôs a fronteira em 4 de setembro de 1851 e, no quartel-general de Cunhaperu, definiu aos soldados a missão nos termos de uma ocupação limitada: não tinham no Estado Oriental outros inimigos senão os soldados de Manoel Oribe, e esses mesmos apenas enquanto empunhassem armas; desarmados ou vencidos, eram "americanos", eram "nossos irmãos"; a propriedade de qualquer um, nacional ou estrangeiro, amigo ou inimigo, era "inviolável e sagrada", e quem a violasse seria punido como indigno de pertencer às fileiras.6
A campanha no Estado Oriental terminou sem batalha. Urquiza, mais próximo das forças de Oribe, aceitou negociar a rendição sem esperar a chegada dos brasileiros e sem consultar Caxias sobre as condições; Oribe capitulou em 8 de outubro de 1851 e recolheu-se livre à sua propriedade rural. Doratioto observa que a capitulação só foi aceita por Oribe diante da iminência de ser atacado pelas tropas brasileiras: o exército que não combateu foi, ainda assim, o peso que fechou a negociação.50 Em ofício de 12 de outubro, Urquiza explicou não ter esperado pelos aliados, alegando a demora na aproximação das forças de Caxias e as defecções nas tropas adversárias.47 Rosas já declarara guerra ao Brasil em 18 de agosto; em 21 de novembro assinou-se novo tratado de aliança entre o Império, o governo uruguaio e as províncias de Entre Ríos e Corrientes, declarando por finalidade fazer guerra a Rosas, com a ressalva de que não se combatia a Confederação e sim o seu governo.50 47
Na ordem do dia nº 33, de 14 de dezembro de 1851, na Colônia do Sacramento, Caxias reconheceu aos soldados o que havia ocorrido: "Sem combater, conseguistes o triumpho! e a Liberdade, a Humanidade, a Civilisação, e a Ordem triumpharam com vosco!"1 47
Para a campanha argentina, os tratados determinaram que uma divisão do exército brasileiro integrasse as forças de Urquiza. Caxias conservou na Colônia mais de dez mil homens de todas as armas, formando o exército de reserva, e destacou a 1ª divisão, com quatro mil e vinte praças de seis batalhões de infantaria, um regimento de cavalaria, parte do 1º regimento de artilharia volante e uma bateria de foguetes à Congreve.1 Essa divisão fora comandada até 6 de novembro pelo marechal Bento Manoel Ribeiro, o mesmo aliado da Farroupilha, e passou ao brigadeiro Manoel Marques de Sousa quando as enfermidades de Bento Manoel se agravaram e ele se retirou para o Rio Grande.2 A escolha coube a Caxias. Bormann, escrevendo sessenta anos depois, narra que o ministro Carneiro Leão censurou a nomeação em conversa particular e que Caxias respondeu mandando-o cuidar apenas de sua diplomacia; o episódio é anedota de tradição militar, sem documento que o sustente.2
Em 3 de fevereiro de 1852, em Monte Caseros, o exército de Rosas foi destruído, e a divisão brasileira combateu ali sob o comando de Marques de Sousa, futuro conde de Porto Alegre. Caxias não esteve no campo da batalha: permaneceu de prontidão na Colônia do Sacramento com a maior parte das forças brasileiras, preparado para atacar Buenos Aires em ação coordenada com a esquadra imperial caso fosse necessário.50 1 O plano tinha execução preparada em detalhe. Titara registra que Caxias já designara o brigadeiro José Fernandes dos Santos Pereira, comandante da 3ª divisão e então de toda a infantaria, para acompanhá-lo no desembarque ao norte de Buenos Aires assim que o exército da vanguarda engajasse o combate contra as trincheiras de Rosas, e que o dia previsto para isso era 4 de fevereiro de 1852. A batalha ocorreu na véspera.1 Depois dela, as tropas brasileiras desfilaram nas ruas de Buenos Aires e Caxias foi recebido com honras militares por ordem de Urquiza.50 46
Depois de Caseros o exército mudou de função sem mudar de lugar. Passou a servir de instrumento coercitivo na disputa sobre os tratados com o Estado Oriental, sob direção da missão diplomática de Honório Hermeto Carneiro Leão: em ofício de 6 de abril de 1852, o enviado transmitiu a Caxias instruções para a ocupação das fronteiras estabelecidas pela Convenção de 1819, base da política coercitiva adotada pelo Império para exigir o cumprimento dos tratados.62 Caxias, por sua vez, instruiu o coronel David Canabarro a ocupar as fronteiras do Arapehy, instruções depois suspensas em virtude de novas negociações.62 Em 18 de maio, o mesmo enviado comunicava a solução da questão dos tratados e dava instruções para a retirada do Exército Imperial para o Rio Grande do Sul.62 A coordenação entre a missão e o comando militar era, segundo a apresentação do próprio inventário diplomático, o que acrescia eficácia à ação de Honório Hermeto.62
Durante quase toda a campanha, a província que ele presidia foi administrada por outro. Desde 18 de outubro de 1851 o vice-presidente Luís Alves Leite de Oliveira Bello respondia pelo governo "na ausência do seu muito digno Presidente", enquanto Caxias permanecia titular do cargo.12 Em 14 de março de 1852 recebeu a Medalha dos Oficiais Generais, concedida aos que compuseram o Exército em operações na República do Uruguai; em 26 de junho foi agraciado com o título de marquês de Caxias; em 30 de junho apresentou-se na corte, e em julho foi exonerado da presidência e do comando.46
O ministro e os gabinetes
O Ministério da Guerra e o primeiro gabinete
Em 14 de junho de 1855 assumiu o Ministério da Guerra no gabinete do marquês do Paraná, o gabinete da Conciliação. No mesmo dia entrava para os Negócios Estrangeiros José Maria da Silva Paranhos, futuro visconde do Rio Branco, que Honório Hermeto convidara anos antes para secretariá-lo na missão ao Prata.46 63 Com a morte de Paraná, Caxias assumiu em 3 de setembro de 1856 a presidência do Conselho de Ministros, acumulando-a com a pasta da Guerra até 4 de maio de 1857.60 63 Segundo Cláudio Moreira Bento, pediu antes ao imperador que o poupasse, alegando doença e vontade de limitar-se à administração do Exército; não foi atendido, e passou a chefiar um gabinete que não formara.60 Presidiu às eleições em que pela primeira vez se executou a lei dos círculos.6 O acúmulo aparece no registro oficial corrente: em 20 de setembro de 1856, a seção de declarações do Jornal do Commercio anunciava que "o Illm. e Exm. Sr. marquez de Caxias, presidente do conselho, ministro e secretario de estado dos negocios da guerra, dará audiencia ás terças e sextas-feiras, ás 11 horas da manhã" na secretaria da Guerra.13
Entre as medidas que Bento destaca na passagem de Caxias pelo Ministério da Guerra está a criação da Repartição do Ajudante-General. A autorização veio no artigo 5º, § 9º, da lei nº 862, de 30 de julho de 1856, que mandava suprimir a comissão encarregada dos trabalhos preparatórios das promoções e o Comando das Armas da Corte, criando em substituição o lugar de Ajudante-General do Exército: o posto que Caxias ocupara entre 1846 e 1849 desaparecia para dar lugar ao novo.14 60 A execução veio em três atos, todos de 31 de janeiro de 1857: o decreto n. 1785 suprimiu o Comando das Armas da Corte, o decreto n. 1881 criou a repartição e aprovou seu regulamento, e a comissão de promoções já fora suprimida por aviso de 31 de dezembro anterior. O primeiro Ajudante-General foi seu tio, o marechal Manoel da Fonseca Lima e Silva, barão de Suruí, que já fora ministro da Guerra em 1831–1832 e em 1835–1836. A criação obrigou a instituir um delegado do Ajudante-General em cada província sem comando de armas, o assistente, com regulamento de 14 de março do mesmo ano, e permitiu suprimir os ajudantes de ordens militares dos presidentes de província. O próprio relatório reconhecia o alcance e o limite do que fazia: uma modificação radical no sistema de administração disciplinar, "tendo de desenraizar abusos inveterados", não podia "apresentar immediatamente os bons resultados que o governo espera colher da uniformidade e regularidade da disciplina". A participação pessoal de Caxias na concepção da medida continua sem documento que a estabeleça.14 60 No mesmo biênio a Escola Militar foi separada da Escola Central do largo de São Francisco e passou a funcionar em dependência da Fortaleza de São João, enquanto se construía a sede da Praia Vermelha.60 A esse período e aos seguintes Bento atribui ainda a adaptação das Ordenanças de Portugal como doutrina de instrução para as três armas, um novo Código Penal Militar em substituição aos Artigos de Guerra do conde de Lippe, o Regulamento Correcional das Transgressões Disciplinares, a criação de colônias militares e a defesa do serviço militar obrigatório por sorteio, retomada em 1862. São atribuições de uma obra celebratória e institucional, apresentadas sem datas de promulgação para a maior parte dos itens. Parte dessa lista pôde ser confirmada, parte não. Os relatórios apresentados por Caxias em 1857 e em 1862 documentam a reforma administrativa, a cobrança da lei do recrutamento e a organização da justiça militar. Não documentam a autoria pessoal das medidas que a obra lhe atribui, e mostram que outras, como a colonização militar, foram políticas de Estado transferidas entre ministérios.15 16 Os itens sem data em Bento seguem sem confirmação.60
O relatório que apresentou em 4 de maio de 1857, ao deixar a pasta, dá a medida do que administrara. O exército de linha "pouco excede de 14,000 homens, sendo a decretada para circumstancias ordinarias 18,500", e a falta vinha do "systema tortuoso, irregular, e por conseguinte improficuo do recrutamento forçado, admittido entre nós". A conclusão que tira daí não é o pedido de mais tropa. É o contrário: o governo entendia ser "mais conveniente ter um exercito pequeno, porém composto de bom pessoal, bem pago, bem disciplinado, e bem fornecido do necessario, do que um maior que não possa ser mantido nessas condições". Nesse ponto, pedia ao Parlamento uma medida específica, e pediu de novo: "porque uma das mui ponderosas dessas circumstancias seja a falta da lei do recrutamento, ainda uma vez invoco o vosso patriotismo e illustração para que doteis o exercito com essa lei".15
Na reprodução de Bento, baseada em José Faustino da Silva, Caxias teria definido o regulamento disciplinar como "propriamente um regulamento policial da disciplina interna dos corpos", base da alta disciplina e instrumento para coibir "o abuso, infelizmente tão generalizado no Exército, na aplicação de arbitrariedades correcionais".60 Segundo Bento, Caxias apresentou também um projeto de criação do Colégio Militar, destinado aos filhos dos mortos e inutilizados em campanha, que não foi acolhido; teria voltado a ele em 1863, indicando como sede uma dependência da Fortaleza de São João, sem consegui-lo.60
O fim veio antes da abertura das câmaras. Em 1º de maio de 1857 os ministros apresentaram-se ao imperador no paço de São Cristóvão e ofereceram a demissão, conservando as pastas apenas enquanto não se organizasse novo gabinete. O Jornal do Commercio de 3 de maio comentou que o ministério preferira declarar-se morto no dia 1º a agonizar até o dia 15, e recusou a explicação que então circulava, de que a queda decorrera de votações sobre duplicatas eleitorais em que estariam interessados parentes e amigos de ministros: o exame dos diplomas era questão de justiça, não de confiança, e o gabinete se demitira porque seus dias estavam contados havia muito.13 Deixando o gabinete em 4 de maio de 1857, tornou-se conselheiro de Guerra. Nessa função, ainda segundo Bento, elaborou projetos como um plano de invasão do Paraguai e outro relativo à Questão Christie.60 Em 18 de dezembro de 1858 passou a integrar o Conselho Supremo Militar e de Justiça.46
O segundo gabinete
A queda do gabinete presidido pelo liberal Ângelo Moniz da Silva Ferraz, futuro barão de Uruguaiana, levou o imperador a procurar um nome de consenso. Caxias organizou o gabinete em 2 de março de 1861. Paranhos voltou aos Estrangeiros e permaneceu ali até 21 de abril daquele ano.60 46 63
A exposição ao Senado veio dois meses depois, na sessão de 8 de maio de 1861, em resposta a interpelação de Souza Franco. Caxias começou pela origem do encargo: "No dia 2 de março fui chamado a S. Christovão e recebi ordem de Sua Magestade o Imperador para encarregar-me da tarefa de organisar o novo ministerio." Declarou não ter aceitado "tão grande honra sem testemunhar a Sua Magestade o Imperador quanto conheço a minha insufficiencia". Em seguida recusou o programa como gênero: os princípios estavam "bem indicados pelos precedentes das pessoas que delle fazem parte", seus colegas e ele eram conhecidos, e por isso julgava poder dispensar-se de dizer em que sentido dirigiria os negócios. O país queria, no presente, "a rigorosa observancia da constituição e das leis e a mais severa e discreta economia dos dinheiros publicos, attentas as circumstancias do nosso actual estado financeiro". E concluiu com a divisa do ministério: "Os actos, senhores, devem valer mais do que as palavras, e peço a todos que nos julguem por nossos actos."17 60
Sobre a intervenção do governo nas eleições, distinguiu com igual concisão o partidário do chefe de gabinete. O registro chega por quem estava na Câmara ouvindo: segundo Zacharias de Góes e Vasconcelos, Caxias "declarou, com satisfação de todos os lados da camara, que fóra do poder é homem de partido e não duvida mandar cerrar fileiras, mas que, achando-se como se acha no poder, só trata de fazer justiça a todos".18 60
O mesmo Zacharias, na sessão de 25 de julho de 1861, deu a medida do que a Câmara via naquele orador improvável. Caxias dissera dias antes não ter hábito de tribuna; Zacharias respondeu que os discursos dele lhe pareciam excelentes, "concisos e despidos de flores e atavios de rhetorica, elles têm sido invulneraveis", e que, ao definir a política do governo, ele o fizera com a maior clareza, "pronunciando alto e bom som a palavra moderação como parte integrante de seu programma, palavra que os seus collegas disserão subentender-se, mas não pronunciárão senão a medo". E acrescentou que o presidente do conselho não só pusera a moderação no programa como "declarou que era fiador da lealdade desse programma". O elogio não vinha de um adversário. Zacharias falava como conservador, declarando-se fiel "á sã doutrina do partido" e prestando ao governo "a adhesão necessaria para que elle marche regularmente"; recusara a presidência da Bahia para que essa adesão ficasse "isenta de laivos de interesse". Reservava-se, porém, o direito de "observar se a promessa de moderação solemnemente feita pelo nobre marquez presidente do conselho é ou não cumprida exactamente", e concluía: "Eu creio que o será: aceito a fiança do nobre marquez."18 60 Dez meses depois seria a emenda dele, no voto de graças, a derrubar o gabinete.
Cinco anos depois, de volta à pasta, o quadro pouco mudara. Faltavam "mais de 2,000 praças para o completo da força decretada para o anno financeiro de 1861 a 1862", e a lei que pedira em 1857 continuava a não existir: "uma lei do recrutamento é por ventura uma das nossas mais palpitantes necessidades". O relatório que apresentou em 1862 registra ainda que as perdas anuais passavam de um terço do pessoal existente, e retoma o problema da distinção entre transgressão disciplinar e crime militar, que ele já discutira na primeira gestão e que seguiria pendente depois dele.16 19 13 20
As colônias e presídios militares passaram do Ministério do Império para o da Guerra pelo decreto nº 2.747, de 16 de fevereiro de 1861, poucas semanas antes da formação do segundo gabinete. O relatório de 1862 já as descreve sob administração da Guerra, uma a uma, com pessoal, famílias, agregados, escravizados e africanos livres. Era política de Estado incorporada à pasta e herdada pelo novo ministro, não criação pessoal de Caxias.16 14
A queda de maio de 1862
A queda está documentada dia a dia pela imprensa. Em 21 de maio de 1862 a Câmara dos Deputados adotou, por 42 votos contra 41, a emenda que o conselheiro Zacharias apresentara em nome da oposição ao último período do voto de graças. O Correio Mercantil do dia seguinte publicou a lista nominal dos 42 deputados que votaram com a oposição, entre eles Zacharias, Francisco Otaviano, Saraiva, Martinho de Campos, Teófilo Ottoni e o barão de Porto Alegre, o mesmo Marques de Sousa que comandara a divisão brasileira em Caseros.21 O placar é confirmado pelos próprios Anais da Câmara: na sessão de 27 de maio, um deputado da oposição lembrava que "a votação que deu ganho de causa á opposição foi de 42 contra 41", e interpelava o novo gabinete sobre a adesão "desses quarenta e um deputados" que haviam sustentado o ministério vencido.22
Seis dias depois, no Senado, Caxias explicou pessoalmente o que se passara. Interpelado sobre as causas da retirada do gabinete, disse que desde os primeiros dias da sessão previra que o ministério não poderia marchar com aquela câmara, dada a pequena diferença de votos entre maioria e minoria e a "soffreguidão e vehemencia" com que se manifestava a oposição parlamentar "chamada liga". O encerramento apressado da discussão do voto de graças deu ao governo a oportunidade que esperava, e a votação da emenda deixou o ministério em minoria por um voto. Não hesitaram: foram a São Cristóvão, expuseram ao imperador seu modo de encarar a situação política e propuseram a solução que julgavam conveniente, um apelo ao país. O imperador não houve por bem anuir à medida, e seguiu-se a retirada do gabinete. Caxias acrescentou um último ato, que o coloca dentro do próprio mecanismo da sucessão: "Consecutivamente tive ordem de Sua Magestade para chamar á sua presença o chefe da nova maioria da camara dos deputados, o que cumpri, transmittindo-a por escripto ao Sr. deputado Zacharias de Góes e Vasconcellos, o qual foi logo encarregado de organisar o novo gabinete." Fechou dizendo crer que saíam quando deviam, "trazendo a firme convicção de havermos servido com zelo e lealdade ao imperador e ao paiz".23 21
A demissão foi pedida, portanto, não por derrota isolada, mas pela recusa da dissolução que a derrota tornara necessária aos olhos do gabinete. O decreto de exoneração é de 24 de maio de 1862.21 60 Capistrano relaciona o encerramento à abertura das Câmaras naquele mês.6
O que se sabe e o que falta
Um indicador agregado permite dimensionar o lugar institucional da pasta, embora não demonstre decisões pessoais do ministro: a Guerra recebeu aproximadamente 27% do orçamento durante sua primeira passagem e cerca de 21% em 1861–1862.60 Capistrano de Abreu, em 1903, resume que Caxias ajudou o programa de conciliação de Paraná fazendo na pasta "todo o bem que pôde a seus camaradas", reformando as partes gastas do Exército e procurando torná-lo eficaz; é juízo de ensaísta, não balanço documental.6 Os relatórios que o próprio Caxias apresentou, em 1857 e em 1862, foram lidos e estão fichados; os apresentados em 1858 e em 1863, por Jerônimo Francisco Coelho e por Polidoro da Fonseca Quintanilha Jordão, servem de contraprova, por mostrarem o que os sucessores encontraram e o que continuou pendente.15 16 24 20
Um episódio relatado por Capistrano resume melhor que qualquer outro a relação entre os dois lados de sua carreira. Interrogado por um ministro liberal se queria partir para o Rio Grande do Sul quando a guerra começava, respondeu estar pronto a seguir sem demora desde que fosse nomeado ao mesmo tempo presidente da província, porque só com esse título teria competência para mover a Guarda Nacional, sem a qual nada poderia.6 O comando militar, para funcionar, precisava do cargo civil. Era a mesma combinação que o levara ao Maranhão em 1840, ao Rio Grande do Sul em 1842 e outra vez ao Sul em 1851.
Do trabalho parlamentar nesses anos sabe-se pouco. No livro 1 dos Anais do Senado de 1851, o ano em que partiu para o Sul, a busca nominal não localizou discurso substantivo seu: registram-se votação para comissão, presença em sessões, assinatura de parecer da Comissão de Marinha e Guerra sobre petição de viúva e referências de outros senadores a seus serviços. É um resultado negativo documentado para aquele volume, não prova de silêncio em toda a carreira.4
Luto e véspera
Em junho de 1862 morreu Luiz Alves, seu único filho homem, aos catorze anos.46 Em 2 de dezembro do mesmo ano foi promovido a marechal de exército graduado.46 64 Os dois fatos pertencem ao mesmo ano e a ordens distintas; a documentação não os relaciona.
Em 10 de outubro de 1866 foi nomeado comandante das forças brasileiras em operações no Paraguai. Chegou a Tuiuti em 18 de novembro.46
Referências
Obras citadas nesta página, na ordem em que aparecem no texto.
Fontes primárias e documentos de época
- TITARA, Ladislau dos Santos. Memorias do Grande Exercito Alliado Libertador do Sul da America. Rio Grande do Sul: Typographia de B. Berlink, 1852. https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/5226
- BORMANN, José Bernardino. Rosas e o Exército Aliado. Rio de Janeiro: Oficinas Tipográficas Gerson, 1912.
- BRASIL. Senado do Império. Anais do Senado, 1846, livro 1. https://www.senado.leg.br/publicacoes/anais/pdf/Anais_Imperio/1846/1846%20Livro%201.pdf
- BRASIL. Senado do Império. Anais do Senado, 1851, livro 1. https://www25.senado.leg.br/web/atividade/anais/anais-do-imperio/-/imperio/8
- ABREU, J. Capistrano de. "O Duque de Caxias". Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 4 ago. 1903. Reproduzido na Revista do IHGB, t. LXIX, parte II, 1906, e depois em Ensaios e estudos, 2ª série, 1932. https://horadopovo.com.br/o-duque-de-caxias-por-capistrano-de-abreu/
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- BRASIL. Ministério da Guerra; JORDÃO, Polidoro da Fonseca Quintanilha. Relatório da Repartição dos Negócios da Guerra apresentado à Assembleia Geral Legislativa. Rio de Janeiro, 1863. Center for Research Libraries, Brazilian Government Documents / Ministerial Reports, registro 2390, catalogado como “Relatorio, 1862”.
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- Anais do Parlamento Brazileiro, Câmara dos Deputados, 1862, tomo I. Rio de Janeiro: Typographia do Imperial Instituto Artistico. Biblioteca Digital da Câmara dos Deputados. https://bd.camara.leg.br/bd/collections/857759f3-6161-4633-b08c-512a52295cae
- Anais do Senado do Império, 1862, livro 1. Brasília: Senado Federal. https://www25.senado.leg.br/web/atividade/anais/anais-do-imperio
- BRASIL. Ministério da Guerra; COELHO, Jerônimo Francisco. Relatório da Repartição dos Negócios da Guerra apresentado à Assembleia Geral Legislativa. Rio de Janeiro, 1858. Center for Research Libraries, Brazilian Government Documents / Ministerial Reports, registro 2385, catalogado como “Relatorio, 1857”.
Biografias, estudos e obras de referência
- SOUZA, Adriana Barreto de. Duque de Caxias: o homem por trás do monumento. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008. 616 p. ISBN 978-85-200-0864-5.
- CORONATO, Daniel Rei. Diplomatas e estancieiros: o Brasil e a busca pelo equilíbrio de poder no Prata, 1828-1852. 2017. Tese (Doutorado em Relações Internacionais). https://bdtd.ibict.br/vufind/Record/UNSP_7bb7290807e0a0f4e9285f0fab12a39a
- DORATIOTO, Francisco. "Caxias no Prata: da Guerra da Cisplatina à da Tríplice Aliança". Revista do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil, v. 63, n. 89, p. 39-55, 2003. https://portaldeperiodicos.marinha.mil.br/index.php/ighmb/article/view/3532
- BENTO, Cláudio Moreira. Duque de Caxias: o patrono do Exército Brasileiro. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2022. 488 p. https://www.eceme.eb.mil.br/images/biblioteca/duque_de_caxias_o_patrono_eb.pdf
- SOUZA, Adriana Barreto de. "Trajetórias militares, política imperial e escrita da história". Métis: História & Cultura, v. 2, n. 3, p. 95-108, 2003. https://sou.ucs.br/etc/revistas/index.php/metis/article/view/1043
- FUNAG. Missão especial de Honório Hermeto Carneiro Leão ao Rio da Prata: inventário analítico dos documentos no Arquivo Histórico do Itamaraty. Brasília: FUNAG, 2001. https://funag.gov.br/biblioteca-nova/produto/1-656-missao_especial_de_honorio_hermeto_carneiro_leao_ao_rio_da_prata_inventario_analitico_dos_documentos_no_arquivo_historico_do_itamaraty_rio_de_janeiro
- FRANCO, Álvaro da Costa (org.). Com a palavra, o Visconde do Rio Branco: a política exterior no Parlamento Imperial. Rio de Janeiro: CHDD; Brasília: FUNAG, 2005. https://funag.gov.br/biblioteca-nova/produto/1-728-com_a_palavra_o_visconde_do_rio_branco_a_politica_exterior_no_parlamento_imperial
- INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO. Inventário da Coleção Duque de Caxias. https://atom.ihgb.org.br/index.php/duque-de-caxias-luis-alves-de-lima-e-silva