Introdução
Em 18 de julho de 1841, três atos oficiais alcançaram o mesmo homem no mesmo dia. Luiz Alves de Lima e Silva foi promovido a brigadeiro, agraciado com o título de barão de Caxias e eleito deputado pelo Maranhão.46 Tinha trinta e sete anos e acabara de deixar a presidência daquela província, onde passara catorze meses à frente da campanha contra a Balaiada.
O título vinha de um topônimo maranhense, e a partir dali o nome de batismo saiu do uso público. Os decretos, os jornais, as ordens do dia e depois a história passaram a chamá-lo Caxias. Nos vinte e oito anos seguintes o título subiria três vezes, sempre depois de uma campanha: conde em 25 de março de 1845, marquês em 26 de junho de 1852, duque em 23 de março de 1869.46 O ducado foi o único concedido no Segundo Reinado.
O que ele fez entre uma mercê e outra ocupa quase toda a geografia do Império. Maranhão em 1840 e 1841. São Paulo e Minas Gerais em 1842. Rio Grande do Sul de 1842 a 1845, quando negociou o fim de uma guerra civil que já durava nove anos. Rio Grande do Sul outra vez em 1851, agora como presidente da província e comandante do exército que atravessou o Uruguai contra Oribe e seguiu até a queda de Rosas.1 2 47 Paraguai de 1866 a 1869, no comando da maior guerra externa da história do país. Entre as campanhas, uma carreira civil que a memória militar costuma deixar em segundo plano: senador pelo Rio Grande do Sul desde maio de 1846, ministro da Guerra, conselheiro de Estado e três vezes presidente do Conselho de Ministros, em 1856, 1861 e 1875.46 3 4
Há um traço que os documentos sustentam melhor do que qualquer adjetivo. Caxias organizava, disciplinava, combatia e negociava, e fazia as quatro coisas dentro da mesma campanha. As ordens do dia da guerra farroupilha tratam de hospitais, cavalhadas, suprimento, deserção e promoções tanto quanto de operações.5 No Maranhão, passou cerca de um mês reorganizando as administrações civil e militar antes da primeira incursão, e mais tarde anistiou e incorporou às próprias fileiras combatentes que vinha perseguindo.48 No Rio Grande do Sul, a paz de 1845 foi construída com anistia e reintegração dos vencidos à vida pública provincial.46 Era enviado, em regra, a situações que exigiam ao mesmo tempo comando militar e habilidade política, e foi essa combinação que o Império aprendeu a lhe pedir.
Caxias morreu em 7 de maio de 1880, na Fazenda de Santa Mônica, propriedade do genro.46 As fontes consultadas divergem sobre a localização administrativa da fazenda, entre Vassouras e Valença, e por isso este texto não escolhe uma das duas.46 Não era Patrono do Exército, porque o título ainda não existia como instituição brasileira.49 6 O culto oficial começou quarenta e três anos depois. Em 25 de agosto de 1923, uma iniciativa do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro acolhida pelo ministro Setembrino de Carvalho instituiu a primeira Festa de Caxias, marcada na data de seu nascimento.49 Segundo o estudo de Celso Castro, em 1925 o Aviso ministerial nº 366 vinculou o aniversário de Caxias ao Dia do Soldado; a bibliografia militar diverge sobre o ano exato.49 Em 30 de agosto de 1949, a estátua equestre foi transferida do Largo do Machado para diante do Palácio Duque de Caxias, o novo prédio do Ministério da Guerra, na Avenida Presidente Vargas. Ali se construiu um panteão, para onde foram levados os restos mortais do duque e da duquesa, exumados no cemitério do Catumbi em 23 de agosto.43 44 Essa segunda vida, a do monumento, tem história própria e será contada no seu lugar.
Este texto acompanha a primeira. Segue Luiz Alves do começo, e o começo não está nele. Está numa geração anterior, num navio que entrou na baía de Guanabara em outubro de 1767 trazendo dois irmãos oficiais recém-saídos de Portugal.46
Os doze capítulos
- Capítulo 1 Os Lima e Silva: origens, família e infância Dois irmãos portugueses desembarcam no Rio em 1767. Do regimento dos Lima ao nascimento de Luiz Alves, em 1803.
- Capítulo 2 Formação militar e Independência A Real Academia Militar, o Batalhão do Imperador e a campanha da Bahia.
- Capítulo 3 Cisplatina e Primeiro Reinado A guerra no Prata, o Passo do Rosário e o motim das tropas que voltavam.
- Capítulo 4 Regência e laboratório político da Corte A Guarda Municipal Permanente e o aprendizado político no Rio da Regência.
- Capítulo 5 Balaiada e Maranhão O comando no Maranhão, a pacificação e o título de barão de Caxias.
- Capítulo 6 Revoltas de 1842 e Revolução Farroupilha São Paulo, Minas e o Rio Grande do Sul, com o episódio de Porongos.
- Capítulo 7 Caxias político, senador e ministro O Senado, a pasta da Guerra e a presidência do Conselho de Ministros.
- Capítulo 8 A Guerra do Paraguai antes do comando Os créditos de guerra, os debates do Senado e a nomeação de 1866.
- Capítulo 9 O comando no Paraguai A reorganização do exército e as operações até Humaitá.
- Capítulo 10 Dezembro, Assunção e a volta A Dezembrada, Assunção e o rompimento com o governo.
- Capítulo 11 O duque, o conselheiro e a fazenda O ducado, o Conselho de Estado, o último gabinete e Santa Mônica.
- Capítulo 12 O monumento A morte, o culto ao patrono do Exército e a memória construída.
O acervo e o método
Esta biografia foi escrita a partir de um corpus reunido e fichado documento a documento: a biografia de referência de Adriana Barreto de Souza, teses e artigos acadêmicos, ordens do dia, relatórios do Ministério da Guerra, atas do Conselho de Estado, anais do Senado e da Câmara, coleções de leis, inventários de arquivo e a imprensa do tempo.
Cada afirmação do texto traz o número da obra em que se apóia, e a obra aparece por extenso ao fim da página. Onde o ponto é disputado, o texto registra a divergência em vez de escondê-la. Onde a documentação não permite afirmar, o texto diz que não permite.
A lista completa das obras, com os endereços de consulta pública, está na bibliografia.
Referências
Obras citadas nesta página, na ordem em que aparecem no texto.
Fontes primárias e documentos de época
- TITARA, Ladislau dos Santos. Memorias do Grande Exercito Alliado Libertador do Sul da America. Rio Grande do Sul: Typographia de B. Berlink, 1852. https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/5226
- BORMANN, José Bernardino. Rosas e o Exército Aliado. Rio de Janeiro: Oficinas Tipográficas Gerson, 1912.
- BRASIL. Senado do Império. Anais do Senado, 1846, livro 1. https://www.senado.leg.br/publicacoes/anais/pdf/Anais_Imperio/1846/1846%20Livro%201.pdf
- BRASIL. Senado do Império. Anais do Senado, 1851, livro 1. https://www25.senado.leg.br/web/atividade/anais/anais-do-imperio/-/imperio/8
- BIBLIOTECA NACIONAL. Guerra dos Farrapos: ordens do dia do general Barão de Caxias, 1842-1845. Anais da Biblioteca Nacional, v. LXIII. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1942. https://hemeroteca-pdf.bn.gov.br/402630/per402630_1941_00063.pdf
- ABREU, J. Capistrano de. "O Duque de Caxias". Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 4 ago. 1903. Reproduzido na Revista do IHGB, t. LXIX, parte II, 1906, e depois em Ensaios e estudos, 2ª série, 1932. https://horadopovo.com.br/o-duque-de-caxias-por-capistrano-de-abreu/
- Nação Brasileira, ano XXVII, n.º 312, agosto de 1949. Hemeroteca Digital Brasileira, Biblioteca Nacional. https://memoria.bn.gov.br/
- Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 31 de agosto de 1949. Hemeroteca Digital Brasileira, Biblioteca Nacional. https://memoria.bn.gov.br/
Biografias, estudos e obras de referência
- SOUZA, Adriana Barreto de. Duque de Caxias: o homem por trás do monumento. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008. 616 p. ISBN 978-85-200-0864-5.
- CORONATO, Daniel Rei. Diplomatas e estancieiros: o Brasil e a busca pelo equilíbrio de poder no Prata, 1828-1852. 2017. Tese (Doutorado em Relações Internacionais). https://bdtd.ibict.br/vufind/Record/UNSP_7bb7290807e0a0f4e9285f0fab12a39a
- SOUZA, Adriana Barreto de. "O resgate do que se desmancha: a cartografia da pacificação da Balaiada". Topoi, v. 9, n. 16, p. 233-257, 2008. DOI 10.1590/2237-101X009016009. https://www.scielo.br/j/topoi/a/3rDtfRcLk4VwkqGT8FNsGbt/?lang=pt
- CASTRO, Celso. "Entre Caxias e Osório: a criação do culto ao patrono do Exército Brasileiro". Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n. 25, p. 103-117, 2000. https://periodicos.fgv.br/reh/article/download/2112/1251/3591